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Cidades e pessoas

As pessoas fazem os lugares

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Outro dia me perguntaram se eu gostava de Curitiba.

Respondi que essa é uma pergunta mal formulada.

Quem faz um lugar nunca foi a cidade.

São as pessoas.

DaMatta provavelmente entenderia o que quero dizer. Casas, ruas, praças e cidades nunca são apenas espaços geográficos. São territórios afetivos. A geografia, no fim das contas, também aprende a sentir.

Posso estar no restaurante mais caro do mundo.

Se a mesa estiver errada, a comida perde o gosto.

Posso comer um cachorro-quente de procedência absolutamente duvidosa numa esquina qualquer.

Se a conversa for boa, viro cliente fiel.

As pessoas fazem os lugares.

Talvez seja por isso que nunca consegui responder quando me perguntam qual é meu lugar favorito.

Meu lugar favorito muda de endereço conforme quem está sentado na cadeira ao lado.

Há lugares que visito apenas uma vez e nunca esqueço.

Não por causa da arquitetura.

Nem da paisagem.

Mas porque alguém riu muito naquele dia.

Há outros em que volto dezenas de vezes e continuo não pertencendo.

A Antropologia chama isso de pertencimento.

Eu chamo de vontade de ficar.

Le Breton diz que habitamos o mundo pelos sentidos.

Concordo.

Mas acrescentaria que também o habitamos pelos afetos.

Há cafés cujo cheiro sempre me lembra uma conversa.

Há músicas que ainda carregam cidades inteiras.

Há ruas que continuam existindo dentro da memória muito depois de deixarmos de passar por elas.

Descobri isso quando me mudei.

Achei que sentiria falta dos lugares.

Descobri que sentia falta das pessoas.

Depois percebi outra coisa.

Nem sempre sentimos falta das pessoas.

Às vezes sentimos falta da versão de nós mesmos que existia quando elas estavam por perto.

Bourdieu talvez dissesse que nosso habitus muda.

Eu prefiro dizer que a gente troca de pele sem perceber.

Por isso algumas amizades atravessam décadas.

Outras não sobrevivem a um semestre.

Não porque alguém seja melhor.

Mas porque algumas pessoas pertencem à nossa infância.

Outras pertencem à universidade.

Outras aparecem exatamente quando pensamos que já conhecemos todos os capítulos da nossa própria história.

E ficam.

Gosto especialmente dessas.

As que chegam sem fazer barulho.

Sem prometer permanência.

Sem discursos.

Apenas ocupam um espaço que nem sabíamos estar vazio.

É curioso.

Passei muitos anos acreditando que a felicidade dependia dos lugares que eu ainda conheceria.

Hoje desconfio que depende muito mais das pessoas que ainda vou encontrar.

Talvez por isso eu nunca tenha conseguido gostar de mapas.

Eles indicam caminhos.

Mas não mostram quem estará esperando na chegada.

E, sinceramente?

Sempre achei que essa fosse a parte mais importante da viagem.

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