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Tem!

Ramal Santa Cruz

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Foto Francisco Filipino

Quem viaja nos trens do Rio sabe que, em alguns horários, é impossível entrar no trem.

Depois de um dia cansativo de trabalho, espero 30 minutos no ponto de ônibus. Os coletivos passam lotados pela Praça do Canhão e não param. E eu ali, louca para chegar em casa.

Eis que ouço um trem passando. Tive a brilhante ideia de ir para a estação, que estava a poucos metros do ponto. Caminho deserto. Obra no trajeto, tapumes enormes…

Uma escada que parece não ter fim.

Eis que, de repente, olho para trás e vejo um homem com passos apressados, no mesmo compasso do meu medo. Aquela corridinha básica para disfarçar e…

Percebi que o homem sumiu.

Plataforma vazia. Escura. Observo os carros passando pelo viaduto.

Anunciada a chegada do trem com destino a Santa Cruz, me posiciono mais distante da entrada da plataforma.

Depois de alguma dificuldade para entrar, encontro um cantinho para descansar, em pé mesmo. Incrivelmente, um estranho silêncio toma conta do vagão.

O maquinista comunica uma pausa na viagem. Aguarda autorização para prosseguir.

Fechei os olhos, encostei a cabeça e relaxei. Sabe aqueles segundos sagrados, em que o corpo desliga, mas a mente ainda está acordada?

De repente…

— TEM!

Um grito. Muito alto. Alto mesmo!

Ao mesmo tempo, uma baita pancada na janela.

Pensei que tivesse dormido por horas naqueles poucos segundos. Meu coração disparou. Cheguei a ficar tonta. Era o MC “Tem” do trem iniciando suas vendas.

— Tem, tem, tem…

— Bananada no trem, tem!

— Tem amendoim? Tem!

— Tem biscoito? Tem!

E, a cada mercadoria anunciada, o vagão inteiro respondia em coro:

— Tem!

Eu não o conhecia.

Naquele instante, entre o susto e o alívio, comecei a rir de mim mesma. Depois de imaginar assalto, perseguição e sabe-se lá mais o quê, descobri que o maior perigo daquela viagem era levar um susto do vendedor mais animado do Ramal Santa Cruz.

Quem pega esse trem talvez já saiba de quem estou falando. Eu, até aquele dia, não sabia. Agora sei.

E toda vez que escuto um “TEM!”, meu coração ainda acelera… mas já é seguido de um sorriso.

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