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Bajulação explícita

Vilões tentam afundar a Copa, mas heróis da bola resistem com bravura

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Tem coisas, situações, episódios e eventos que nos obrigam a refletir sobre a vida e, principalmente, sobre as pessoas. Para o bem e para o mal, repito que a reflexão se refere a algumas pessoas. Para nossa sorte, o mundo ainda é habitado por uma maioria de seres que pensam, agem com humanidade, conseguem ser solidários e, sobretudo, que respeitam os direitos e as individualidades do próximo. São as pessoas chamadas normais. Essas, por um lance fortuito, levam seus interlocutores/entrevistadores a identificar heróis e vilões em um mesmo ambiente.

Definitivamente, a 23ª. Copa do Mundo não foi apenas sobre futebol. Marcada para terminar no dia 19, o torneio terminou bem antes e de forma melancólica para muitos jogadores, técnicos, comentaristas, repórteres e telespectadores. Para mim, depois da pífia participação da Seleção Brasileira, ela acabou no dia em que Gianni Infantino, presidente da Fifa, órgão máximo do futebol mundial, escancarou as portas da entidade para que, ruminando, o déspota Donald Trump adentrasse em busca do cartão vermelho que o árbitro brasileiro Raphael Claus corretamente aplicou no jogador norte-americano Folarin Balogun. Antes que Trump achasse, Infantino, no modo débil, submisso, rastejante e bajulador, anunciou que já havia jogado o cartão no lixo e, consequentemente, revogado a expulsão. Foi o prêmio da Fifa para Trump.

De nada adiantou, pois a Bélgica, descumprindo ordens do presidente dos EUA, sapecou uma sonora goleada no escrete americano. No campo, o futebol venceu, com folgas, a política de Trump e de Infantino. Mesmo com a derrota de seus meninos, a interferência foi o início da falência da Copa com 48 seleções. A forma criminosa e vil como os presidentes dos Estados Unidos e da Fifa agiram é a garantia de que, de longe, ambos merecem, com louvor, o título de os grandes vilões desse que tinha tudo para ser o maior torneio mundial de futebol. Surpresa para alguns, vergonha para outros, para muitos a ação descabida e antidemocrática de Trump mostrou como a extrema-direita age diante das adversidades.

Como sempre fazem, os extremistas, na Copa representada pelo líder republicano, deixam rastros de bestialidade, de supremacia, menosprezo, arrogância e egocentrismo. Por obra e graça dos deuses do futebol, também há heróis onde os vilões regurgitam suas intempéries. Hossam Hassan, técnico da seleção egípcia é o efeito bom da amaldiçoada Copa transformada em culto à imagem de Donald Trump. Sem questionar os três gols da virada da Argentina pelas oitavas de final, o treinador, na coletiva pós-jogo, reclamou, com razão, um pênalti não marcado pelo juiz francês François Letexier antes do terceiro gol argentino.

Além disso, ele se mostrou perplexo com a anulação de um gol do Egito por revisão do VAR, justificada com a marcação de falta inexistente no início da jogada. Quanto ao horário escolhido pela Fifa para a partida, Hossam foi categórico: “Quem organiza essas partidas nunca jogou futebol e não tem qualquer conhecimento de futebol, porque não se marca uma partida dessa importância ao meio-dia. Nesse horário, a gente vai passear, tomar ar fresco, comer um brunch, nunca jogar futebol. A que horas os jogadores devem comer?

Corajoso, Hossam Hassan comemorou a classificação do Egito para as oitavas de final enrolado em uma bandeira da Palestina. Na entrevista, sem medo do amigo americano de Benjamin Netanyahu, o técnico desabafou: “Se alguém não sentiu o sofrimento do povo palestino, não tem humanidade. Como seres humanos, deveríamos nos envergonhar”. Algum reparo? Certamente para Infantino e Trump, não. Com tantos ditadores mundo afora vamos flertando com holocaustos aqui e ali. Que Alá nos guarde.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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