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Na caxotinha

Crônicas de um Rio em Chamas

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Não é falar mal, não, mas morar no Rio, às vezes — ou melhor, quase sempre — é uma loteria. Ora é cedo, ora é no fim da tarde. Justamente na hora de ir para casa, tudo acontece.

Já se passavam dois dias de terror pela cidade. Fui liberada mais cedo do trabalho porque o Rio continuava a “pegar fogo”.

Corri para o ponto de ônibus na esperança de pegar a primeira condução. Eu já sabia que, possivelmente, precisaria pegar umas três conduções para chegar em casa, já que os trens estavam suspensos.

Passei uma hora na praça e nada de ônibus. Eis que avisto um ônibus lotado. Fiz sinal, mas o motorista jogou o veículo para a esquerda só para não parar.

Continuei aguardando. Logo apareceu uma “caxotinha” — como chamamos as vans por aqui. Comecei a sinalizar. O motorista foi para a pista ao lado e, em seguida, voltou para a direita. Eu, desesperada, fui caminhando em frente à van até que ela finalmente parou.

Não havia mais espaço. Era uma van de 15 lugares, mas parecia levar umas 22 pessoas.

O cobrador, quase pendurado entre o motorista e a porta, avisou:

— “Nois só vai até Bangu”

Eu só queria chegar em casa.

— Vamos!

Entrei rapidamente e ainda puxei uma senhora que também esperava no ponto.

Mal conseguia me mexer. A van era baixa. Com meu 1,72 metro de altura, eu parecia ter três metros ali dentro. Sem contar a enorme mochila nas costas, carregando seis livros didáticos.

A van saiu em disparada.

Todos tinham pressa, medo e aquela sensação de que alguma coisa ainda iria acontecer.

Alguém gritou:

— Motô, vou descer no próximo!

Quando a van parou, o cobrador desceu rapidamente, deu a volta e abriu a porta.

Eu comecei a descer de ré, porque simplesmente não conseguia me virar. Não olhei para trás. Estava apenas esperando a moça à minha frente descer.

De repente, senti algo duro encostar na minha nuca.

Ouvi uma voz gritar:

— Vai logo, porra!

Quando me virei para responder…

Vi um enorme ferro prateado, brilhante. Até hoje nem sei o nome daquilo.

Era impressionante. Bonito e, ao mesmo tempo, aterrorizante.

Naquele instante, não pensei duas vezes. Subi correndo de volta para a van e sentei no primeiro lugar que encontrei. Ainda puxei outra moça que estava esperando para embarcar.

Todo aquele processo foi traumatizante. Eu achava que já tinha vivido o pior, mas ainda havia espaço para mais um susto.

Mais à frente, já chegando ao ponto final da van, o cobrador perguntou:

— Você está bem?

Respondi:

— Sim… foi só um susto.

Ele insistiu:

— Mas está bem mesmo?

— Sim.

Então perguntou:

— Você é do Rio?

— Sou. Nascida e criada aqui.

Ele olhou para mim e disse:

— Nossa, você ficou tão nervosa que sentou no colo do coroa e nem percebeu!

Quando olhei…

Lá estava eu, sentada no colo de um senhor, na primeira fila, perto da porta.

Coitado do senhorzinho…

Recebeu, sem aviso, meus 112 quilos bem no colo, com direito aos meus peitos praticamente na cara dele.

Levantei na mesma hora, morrendo de vergonha. Pedi desculpas, consegui me ajeitar naquele aperto e fiquei quietinha, enquanto alguns passageiros riam, meio sem jeito, da situação.

Ainda bem que a próxima parada já era o ponto final.

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