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Cartas marcadas

Jogada em vala comum, Copa perde o brilho do futebol

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Depois de impedir a seleção do Irã de circular pelos Estados Unidos, de criar restrições para delegações e torcedores de países que considera indesejáveis e, principalmente, de pressionar a Fifa para suspender uma punição suspensiva a um jogador norte-americano, o que mais pode fazer o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para contaminar ainda mais a Copa do Mundo de 2026?

Por conta exclusiva das aberrações produzidas pelo novo manager do futebol mundial, para onde foi a integridade da competição? Sem dar um tiro e sem acionar o Pentágono, Trump emparedou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que dificilmente conseguirá explicar a seus pares a permissão para que as regras esportivas e éticas da instituição fossem violadas por um qualquer.

Nada de anormal para o autoritário líder da extrema-direita dos EUA, mas é a prova do desprezo absoluto pelas regras e por quem as aplica. Eleito exclusivamente para desconsiderar qualquer estrutura de aplicação de normas, a ação de Trump contra a Fifa é um claro indicador do que ele pode fazer caso as urnas sejam desfavoráveis em novembro, durante as eleições de meio mandato.

Assim como, deliberadamente, vem jogando no lixo a imagem dos Estados Unidos como modelo democrático para o planeta, Donald Trump, covarde e grosseiramente, estragou a 23ª. Copa do Mundo. Independentemente de quem seja campeão, o fato é que a energia ruim do presidente estadunidense tirou o brilho da competição.

Quanto à Fifa de Infantino, a balela de que a entidade não aceita interferência política não passa de uma pífia frase de efeito. Para quem não se lembra, em 2014 a Rússia invadiu a Criméia e, mesmo assim, foi mantida como organizadora da Copa de 2018. Situação idêntica ocorre agora com os Estados Unidos, uma das três sedes do torneio deste ano, embora mantenha uma guerra contra o Irã. Ou seja, o princípio da neutralidade política não é seguido de fato.

No pior dos cenários, Donald Trump, que não assistiu a nenhum dos jogos da Copa, certamente se colocará ao lado de Gianni Infantino no momento da entrega do troféu e das medalhas aos campeões do mundo. Provavelmente, sua presença servirá para mostrar ao mundo que a escandalosa intervenção na Fifa jogou, pelo menos temporariamente, o futebol mundial em uma vala comum. Por conta dos caprichos de um cidadão que odeia a si mesmo, um dos maiores espetáculos da Terra pode acabar com um jogo de cartas marcadas.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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