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Fala no ouvido errado

Para quem desconhece história, um lembrete de que política não muda

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Vou lhe contar uma história do Rio Grande do Norte.

No começo dos anos 1980, o ministro da Indústria e Comércio, Camillo Penna, desembarcou em Mossoró para cumprir agenda oficial. De lá seguiria de helicóptero para uma plataforma da Petrobrás em Galinhos, numa daquelas visitas em que o protocolo precisava funcionar como um relógio suíço.

Dias antes, surgiu uma preocupação curiosa.

Um assessor avisou ao governo do estado que o ministro tinha deficiência auditiva em um dos ouvidos. Era importante saber de que lado as autoridades deveriam conversar com ele.

A resposta veio imediatamente.

O governador Lavoisier Maia tinha exatamente o mesmo problema.

Restava apenas combinar os lados.

Os assessores fizeram as contas, orientaram o cerimonial e concluíram que estava tudo resolvido. Bastava cada um falar no ouvido bom do outro.

Parecia um plano perfeito.

Até o avião pousar.

Na pista havia banda de música, turbinas ligadas, hélices do helicóptero girando e um barulho capaz de atrapalhar até quem ouvia perfeitamente.

Foi nesse cenário que ministro e governador se encontraram.

Camillo Penna aproximou-se do ouvido bom de Lavoisier para explicar o atraso da viagem.

O governador, sem entender uma única palavra, imaginou que o ministro perguntava sobre a região. Então respondeu com toda boa vontade… falando justamente no ouvido surdo do ministro.

Apontava para um lado, depois para o outro:

“Ali fica a fazenda de melão de Tarcísio. E daquele lado é Mossoró.”

O ministro não ouviu nada.

Tentou explicar novamente.

O governador respondeu outra vez.

Sempre no ouvido errado.

Durante alguns minutos, os dois conversaram animadamente sem que nenhum deles escutasse absolutamente nada do que o outro dizia.

Ao redor, assessores, jornalistas e autoridades assistiam à cena sem coragem de interromper o diálogo entre um ministro de Estado e um governador.

A conversa só terminou quando ambos embarcaram no helicóptero e alguém, finalmente, percebeu que o problema não era o protocolo.

Era o ouvido.

A política brasileira continua produzindo cenas parecidas.

Mudam os governos, mudam os partidos e mudam as autoridades.

Mas continua sendo comum ver gente falando com absoluta convicção… exatamente no ouvido errado.

………….

História registrada por Valério Mesquita na coluna “Folclore Político”, publicada no jornal Tribuna do Norte (Natal-RN), em 20 de maio de 2025.

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