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É bonito isso?

Esperança, última que morre, foi enterrada com a Seleção em 2002

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Olívio Henrique da Silva Fortes, mais conhecido como Lilico ou o Homem do Bumbo, foi um dos humoristas mais queridos e lembrados dos anos 60, 70 e 80. Com seu estilo marcante, criou numerosos bordões ao longo de sua longa carreira. Um dos mais repetidos, “Alô, alô Realengo, Aquele Abraço”, chegou a ser utilizado por Gilberto Gil. Dois dos clichês são antigos, mas parecem ter sido criados para a Seleção Brasileira de Carlos Ancelotti, Alysson, Marquinhos, Lucas Paquetá, Neymar Júnior e Raphinha, entre outros menos votados ou menos lembrados. Filosofando enquanto contava piadas, Lilico chegou a se encrencar com a censura ao cantar “Tempo bom, não volta mais”.

“É bonito isso?” foi uma resposta ao grande sucesso de Gil que usou seu bordão sem autorização. Encrencas autorais à parte, assistindo Espanha e Croácia e Inglaterra e Noruega tive certeza de que, em relação à Seleção Canarinho, Lilico estava acima do seu tempo. O Brasil perdeu a liderança, a vergonha, a técnica, a tática e, principalmente, o futebol-arte que, por décadas, encantou o mundo.  Hoje, infelizmente, não encanta nem mesmo os grilos comedores de dólares e de euros que infestam as hortas de Neymar Júnior, Vini Júnior e companhia.

O tempo bom, aquele em que, conforme os especialistas, a camisa jogava sozinha, não volta nunca mais. Na próxima Copa, em 2030, talvez consigamos chegar às quartas-de-final. Mais do que isso será mais um daqueles milagres dos deuses dos estádios. E a questão não é só de encantamento. As fotos e os fatos são cruéis. Faz 24 anos que não produzimos laterais medianos, zagueiros que saibam dominar a bola, ponteiros que cheguem à linha de fundo e atacantes com poder de finalização.

Em contrapartida, temos volantes que jogam de um lado para o outro para dar, vender e emprestar. Meias desse tipo ninguém quer. E não quer porque, das 48 seleções que desfilaram pelos Estados Unidos, Canadá e México, a maioria tem melhor. Cabo Verde e as demais equipes africanas não me deixam mentir. Com um sistema defensivo mais furado do que uma peneira, o Brasil é uma grife do futebol à beira da falência. As prateleiras de reposição estão literalmente vazias.

Como o tempo bom não volta mais, resta ao Brasil viver do passado. A Seleção Brasileira disputou 19 semifinais das 20 primeiras Copas do Mundo. A exceção foi em 1930, no Uruguai. De lá até 2014, os brasileiros sempre figuraram entre os quatro melhores do mundo. Ainda que mantenha a veia patriótica, não há como deixar de registrar que, desde 2002, a mesmice e a mediocridade cresceram e evoluíram em uma mesma seleção: a do Brasil. Se estou errado, como explicar a ausência de Pedro, artilheiro nato, na Seleção sem atacantes?

Ao contrário de Copas anteriores, com destaque para as de 1978, na Argentina, e 1982, na Espanha, a eliminação para a Noruega nada teve de gloriosa. Foi um vexame histórico. Halland e sua trupe viking mostraram aos “reizinhos” brasileiros que futebol se ganha com raça, vontade, criatividade e gols. Para quem já foi grande, a maior entre as maiores, se apequenar como vem se apequenando é o sinal de que, mesmo sendo a última que morre, a esperança por dias melhores no futebol brasileiro morreu faz pelo menos duas décadas. É bonito dizer isso? Claro que não, mas é que temos. O brasileiro continua nascendo com a bola nos pés. O problema é que, hoje, poucos sabem o que fazer com ela.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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