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Homenagem a Rilma Ribeiro

A geometria do horizonte e a curva do mar

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Arquivo Pessoal

Era um daqueles dias de céu impecável em Brasília, daqueles que parecem desenhados com régua e compasso.

O Planalto Central se estendia, reto, infinito, sem uma única curva que desobedecesse ao plano. Ela arrumava as malas no apartamento funcional, de linhas limpas e ângulos exatos, e sentia que cada objeto que dobrava e guardava carregava décadas de uma vida moldada por aquela cidade.

Trinta e tantos anos. Tempo suficiente para que o corpo se acostumasse ao ritmo geométrico: avenidas que cruzam como eixos cartesianos, edifícios que se erguem como teoremas de concreto, um horizonte tão aberto que quase obriga a pessoa a pensar em linhas retas e planos diretos.

Fechou a última mala com um clique seco, quase um ponto final. Não era uma partida qualquer. Era o retorno definitivo. Saiu de São Luís ainda menina, carregando sonhos que pareciam caber melhor nas perspectivas largas da capital. Brasília lhe acolheu, lhe esticou, lhe deu outra postura. Aprendeu a caminhar em linhas retas, a falar com a economia de quem não precisa contornar obstáculos naturais.

A cidade lhe ensinou a eficiência do concreto armado e a vastidão de um céu sem mar. Mas agora, com o cabelo mais grisalho e o coração mais inquieto, ela voltava.

O avião cortou o ar como uma lâmina. De cima, o cerrado dava lugar ao verde mais denso do Nordeste, e, de repente, ali estava: a curva. O mar não se anuncia com sutileza. Ele aparece, imponente, quebrando a rigidez do mapa.

Quando pisou no aeroporto de São Luís, o cheiro lhe acertou antes mesmo da vista. Sal, mangue, vento úmido, algo vivo e salgado que Brasília nunca teve. O ar era diferente, mais pesado, mais carnal. O céu, antes um domo perfeito e distante, agora parecia mais próximo, quase íntimo, tingido pelo reflexo das águas.

A cidade lhe esperava curvada, como sempre. As ruas do centro histórico serpenteiam, as casas coloniais se inclinam umas para as outras em conversas antigas, o casario colorido desce em direção à baía como um rio de telhados. Nada ali é retilíneo. Tudo é onda, maré, remanso. Ela, que havia passado décadas aprendendo a ser uma linha reta, agora precisava reaprender a ser curva.

O desafio começou logo nos primeiros dias. As pessoas falavam mais devagar, tocavam no braço, riam com o corpo inteiro. Ela, habituada ao cumprimento eficiente e ao “vou indo”, se sentia quase estrangeira na própria terra. O sotaque que ela tinha suavizado ao longo dos anos voltava aos poucos, como um músculo adormecido que acorda dolorido. Redescobria as raízes, mas elas não eram mais as mesmas. Ela havia mudado. O que era familiar parecia, ao mesmo tempo, estranhamente novo.

Pela manhã, caminhava pela Praia de São Marcos e observava o horizonte. Em Brasília, o horizonte era uma promessa de possibilidade: plano, aberto, quase abstrato. Ali, o horizonte é concreto e movediço. O mar desenha e apaga fronteiras a cada onda. Ela olhava para aquela linha curva e sentia que ali estava a metáfora da própria vida: saiu reta, voltou sinuosa. Levou a geometria de Niemeyer e de Lúcio Costa no jeito de organizar os pensamentos; trouxe de volta o cheiro de maré cheia e o gosto de caju maduro.

Às vezes, à noite, quando o vento traz o rumor das ondas até a janela. Ela se pega sorrindo sozinha. Não é fácil. Readaptar-se não é apenas voltar ao lugar físico; é reconciliar duas versões de si mesma. A mulher que aprendeu a ser eficiente no Planalto e a menina que um dia correu descalça pela areia. Elas não se excluem. Elas se encontram, enfim, na curva onde o concreto encontra o mar.

São Luís lhe recebe com braços moles e coração quente. Ela se entrega, ainda um pouco rígida, mas disposta a amolecer.

Porque, no fim das contas, a vida não é feita só de linhas retas e planos diretos. É feita também de marés, de curvas inesperadas, de retornos que não são retrocessos, mas reencontros mais profundos.

Ali, onde o horizonte se curva e o mar respira, ela finalmente entendeu: voltar não é apagar o que se tornou. É deixar que a geometria interior encontre, enfim, o ritmo das ondas.

E dançar com ele.

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