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Novo affair

Anatomia de um domingo

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Ernesto, viúvo há dois anos, foi acometido de culpa assim que despertou naquele domingo chuvoso. A ausência de Eulália lhe pareceu aceitável diante do sonho que imaginou acompanhá-lo durante a madrugada.

Barbeou-se com o esmero de outrora. Debaixo do chuveiro, sentiu a água lhe tocar a pele como se fossem os dedos de Fátima, a vizinha do 304. Por que ela teria puxado conversa na tarde anterior no elevador? Até onde sabia, a mulher era casada. Estaria em crise com o marido? E qual foi o real significado daquele sorriso?

Enxugou-se, penteou os cabelos ainda com a toalha enrolada na cintura. Notou que havia perdido peso. O apetite já não era o mesmo desde que Eulália sucumbira. Enfarte. Aos 58 anos. Logo ela, que sempre cuidara da saúde.

— Amor, vamos comigo à academia hoje?

— Não gosto. Você sabe disso.

— Ah, Ernesto, até quando você vai resistir? Olha o coração! Não quero ficar viúva, hein!?

Abriu o armário, pegou uma camisa azul, uma bermuda cinza, meias. Calçou o tênis. Pensativo por alguns instantes, tomou coragem e, já no corredor, confabulou um possível encontro com a vizinha.

— Que surpresa boa!

— Bom dia, dona Fátima.

— Por favor, só Fátima. Ou você vai fazer questão de tanta formalidade entre nós dois, Ernesto?

Chegou. O elevador chegou. Ernesto abriu a porta e nada além do próprio reflexo no espelho ao fundo.

— Tu é mesmo um mané, Ernesto! — disse o reflexo.

— O quê?

— Mané! Tu não passa de um mané. Tu acha mesmo que aquela gata vai dar trela pra você? Hum! Numa hora dessa, a Eulália deve estar se virando no túmulo de tanto rir.

— Será?

— Claro que não, né, Ernesto! Ou tu já esqueceu que ela foi cremada?

Parou. O elevador parou. Ernesto tocou a porta, que se abriu devido ao puxão do Roberto, justamente o marido da Fátima.

— Bom dia, seu Roberto.

— Bom dia por quê? Por acaso você ganhou na loteria?

Impossível. Ernesto nunca apostava. Não por ser contra o jogo, era consciência do próprio azar.

Na calçada, a mente inquieta não deu folga ao sujeito. Será que o Roberto sabia? Não, a Fátima não seria tão sincera a ponto de confessar que estava apaixonada por outro. E por que não diria? Será? Já não duvidava de nada. Foi quando ela surgiu do nada. Não exatamente do nada. Fátima acabara de atravessar a rua, vinha da padaria em frente.

— Oi, seu Ernesto.

Seu Ernesto? Cadê o simplesmente Ernesto?

— Oi, dona Fátima.

Não seria ele a torcer o braço. Era dona Fátima e pronto!

— O senhor viu o Roberto?

— Roberto?

Fingiu desconhecer o nome do rival.

— É! O Roberto, o meu marido.

— Ah, sim! Ele já subiu.

— Tadinho do meu amor.

Tadinho? Amor? E onde o Ernesto se encaixava naquilo tudo?

— Aconteceu alguma coisa?

— Foi a empadinha. Eu avisei, mas o meu fofo é teimoso que o senhor não imagina.

Meu fofo? Aquele bruto?

— Empadinha?

— É, seu Ernesto. Aquela azeitona não estava com a cara boa. Acho que o meu bichinho está agora mesmo sentado no vaso.

Ernesto sentiu a impiedosa realidade bater forte no peito. Nada além de piriri.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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