Curta nossa página


Engoliram o nosso

Noruega faz valer quanto pesa um fundo soberano

Publicado

Autor/Imagem:
Antonio Eustáquio Ribeiro - Foto de Arquivo

Após mais uma vexatória eliminação do Brasil de uma copa do mundo de futebol, que contou com a “luxuosa” participação do eterno Peter Pan Ney, muito tem se falado sobre a Noruega, a algoz da vez. E um dos assuntos mais comentados versa sobre a economia do país e de como o capitalismo norueguês, sob o manto de uma social democracia, funciona, especialmente o papel do Estado na construção do bem estar social da população apoiado em um fundo soberano criado juntamente com a descoberta de petróleo naquele país nos anos 1960, que se tornou um dos maiores fundos do mundo e apóia investimentos estratégicos e de largo alcance social.

Inicio este texto inspirado em mais uma derrocada do ex melhor futebol do mundo para discutir rapidamente como funciona a cabeça dos liberais (melhor neoliberais) brasileiros e sua eterna sanha em destruir o que pode dar certo para tornar o Brasil um país mais rico e menos injusto socialmente. O ex presidente Fernando Henrique Cardoso, ao beber na fonte de Florestan Fernandes e Raúl Prebisch escreveu, bem antes de mandar que esquecessem o que escrevera, sobre o modelo econômico brasileiro, de que se tratava de um capitalismo periférico dependente. De modo simplificado existia no Brasil um capitalismo subordinado ao interesse dos países capitalistas centrais, notadamente os players europeus e os EUA.

Isto se traduziu na defesa por parte da burguesia brasileira de que o país deveria ter uma economia de mercado vinculada aos interesses dos grandes países do capitalismo central, e que o Estado deveria ser o mínimo possível, atuando apenas para proporcionar a defesa da propriedade privada e a facilitação de negócios. Este foi o tom que fez o governo do próprio FHC se tornar o maior privatizador de empresas estatais brasileiras, e de promotor de políticas de afrouxamento legal que permitiram o forte avanço da financeirização da economia brasileira, instalando no Brasil a prevalência do modelo que existe até hoje, um estado capenga no apoio ao desenvolvimento industrial, comercial e social, mesmo com todo o esforço dos governos progressistas de Lula e Dilma.

Quando o Brasil descobriu o pré-sal, almejou-se que isto poderia ser o passaporte para um Estado indutor de desenvolvimento econômico e social inspirado exatamente no modelo norueguês. Na esteira de volumes fabulosos de dinheiro que brotaria do pré-sal, o presidente Lula propôs a criação de um fundo soberano que, apesar do boicote da burguesia e seus representantes no parlamento, foi criado mesmo de forma desidratada. Foi mais um exemplo da prevalência dos interesses da burguesia nacional antipatriota, que prefere ter seus lucros exorbitantes a custa da entrega dos interesses do país ao capital internacional, e que tudo faz para boicotar o engrandecimento do Brasil enquanto nação soberana.

Não satisfeitos com o manietamento do fundo soberano proposto por Lula, após o golpe que derrubou a presidenta Dilma Roussef, os desgovernos Temer e Bolsonaro praticamente destruíram o fundo soberano, assim como diversas outras iniciativas de redenção do Brasil que poderia levá-lo para um estágio de capitalismo mais desenvolvido, e mais voltado para o bem estar social. Puro suco de viralatismo dos liberais brasileiros ávidos apenas pelos escorchantes ganhos derivados dos juros exorbitantes que sangram a economia nacional.

Pois bem, mais um exemplo do descolamento do discurso atrasado e subserviente dos liberais brasileiros vai à lona com uma decisão do atual Primeiro Ministro português, Luís Montenegro, que, saliento, não é social democrata, pois apesar do nome pomposo do partido ao qual pertence, é um expoente do que se chama direita democrática, aquela que defende o neoliberalismo dentro do respeito às regras constitucionais. Mas, ao contrário dos liberais brasileiros, e mais próximo dos liberais clássicos da Europa e EUA, ele propôs a criação de um fundo soberano para, nas palavras dele “ser acionista de empresas estratégicas” para Portugal, sua economia e sua sociedade.

Outros países capitalistas que passam a anos luz de serem considerados socialistas ou comunistas como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Singapura, possuem fundos soberanos alimentados por recursos oriundos de riquezas naturais. Mas os liberais brasileiros vêm isso como elemento desincentivador do livre mercado, e se contorcem contra a existência de qualquer instrumento que signifique um modelo que torne o país maior e mais justo. Infelizmente, a opção por ser periferia feita pela burguesia brasileira mas que lhe rende muitos lucros, levará tempo para ser desmontada, se é que será algum dia.

……………

Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.