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Saliência

O meu passado me condena

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Aos 10 anos, para eu ser um babaquinha completo, só faltavam as plumas. O pior é que pesquisas comprovaram que plumas adornam, mas não são um requisito indispensável para babaquice, então não faltava pissirongas. Eu era um babaquinha perfeito e acabado, cuspido e escarrado.

Em parte, era devido à idade. Aos 10 anos, cursava o primeiro ano do ginásio. Eu era um pré-adolescente baixinho, cuja voz ainda não havia mudado, e que conservava o comportamento de um aluno do primário. Minha recompensa, após entrar em 2º lugar no exame de admissão do renomado Liceu Nilo Peçanha, de Niterói, foi a minha primeira calça comprida. Graças aos deuses pelos pequenos favores!

Além da porrada de aulas no ginásio, eu tinha aulas particulares de português, juntamente com outras crianças, na casa de uma professora. Foi ali que a coisa ocorreu.

A mestra fez uma pergunta. Eu achei que sabia a resposta, e comecei, por todos os meios, a tentar chamar a atenção dela, para que me desse a chance de responder – e de brilhar. Eu revirava os olhos, batia os dedos na mesa, respirava forte… parecia um cão de caça de desenho animado, ansioso por mostrar ao dono que a raposa perseguida está bem atrás dele. Isso foi décadas antes de Roberto Carlos gravar Preciso chamar sua atenção, mas só me faltou ficar nu para ser notado.

A professora, claro, percebeu tamanho alvoroço, e me deixou responder. E aí refuguei. Gaguejando de nervoso, disse a primeira abobrinha que me passou pela cabeça. Ela olhou-me com desprezo e fuzilou:

— Saliente!!!

Senti como se levasse um chute nos ovinhos. “Saliente” tem várias acepções, entre elas algo ou alguém merecedor de destaque, notável, mas também uma pessoa intrometida. Havia ainda um significado que não está nos dicionários, mas era usual nas rodas de moleques de Niterói, em meados dos anos 1950: saliente é quem faz saliência, sacanagem, tipo roça-roça com as amiguinhas ou troca-troca com a tigrada. Desmoralizado em vários níveis, recolhi as guampas e virei uma coruja pelo resto da aula, sem falar, mas prestando atenção, enquanto o rosto queimava e as orelhas ardiam de vergonha. Seja como for, o episódio me marcou, tanto que ficou inscrito em minha memória.

Depois desse vexame, ir à aula particular tornou-se um martírio. Por sorte, meses depois, entrei na adolescência, cresci um bocado, minha voz começou a mudar e, milagre dos milagres, convenci minha mãe de que eu não precisava de reforço escolar.

O resto foi uma questão de tempo. No 2º ginásio, as turmas foram montadas por ordem alfabética, e meu Carlos me colocou no fim da chamada, depois de porradas de Adilsons e nomes desse jaez. Eram, na grande maioria, mais velhos do que eu, e tive de descartar eventuais manifestações de babaquice para não levar porrada todos os dias. E assim me tornei um babaca normal, dentro da média brasileira. Ou assim espero.

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