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Bar do Bosco

Fiado de confissões

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Dona Ermengarda era sinônimo de respeitabilidade. Parecia sempre disponível para uma conversa, não importasse o teor. A mulher era boa de ouvido.

A senhora residia na casa da esquina, bem em frente ao Bar do Bosco. Local frequentado por muitos, mal falado por um tanto, conhecido por todos. Seja como for, Dona Ermengarda parecia apreciar o lugar, tanto é que costumava frequentá-lo de terça a quinta-feira.

— Sexta, sábado e domingo não são para gente do meu feitio. Não que eu valha algum tostão, mas a idade chega para os que teimam com a finitude da vida. E só não vou mais ao Bar do Bosco por um motivo.

— E qual é, dona Ermengarda?

— Não abre às segundas.

Enquanto alguns iam até a mulher para pedir conselhos, boa parte queria apenas desabafar. Todavia, não raro, um ou outro buscava a companhia de dona Ermengarda simplesmente para se vangloriar. Ninharias, mas que inflavam o ego do falante.

— Estou deveras impressionada, Lúcio. Parece que você atingiu um patamar desejado por muitos.

— A senhora acha mesmo?

— Se acho? Meu rapaz, tenho certeza!

Alguns tapinhas nas costas da velha, uma cerveja a mais sobre a mesa e, até acontecia, aquela porção caprichada de fritas. Ermengarda dizia que não precisava, mas o sujeito fazia questão.

— Dona Ermengarda, a senhora merece muito mais. Só não dou porque me falta.

Mês passado, a comunidade acordou com a triste notícia da partida de dona Ermengarda. Como se ninguém soubesse que a mulher já tinha ultrapassado a barreira dos 90 anos. A verdade é que as pessoas não estão preparadas, mesmo que o fim da linha esteja bem ali, bastando dobrar a esquina.

O velório aconteceu naquela mesma tarde. Dezenas de conhecidos compareceram, não faltou gente para segurar as alças do caixão. Adeus, dona Ermengarda!

Os dias que se seguiram foram de luto, porém logo se transformaram em rotina. Então, quando tudo já parecia ter voltado ao normal, eis que chegou uma carta para o Bosco, o dono do bar. O sujeito observou com atenção o envelope e constatou que a remetente era a finada. Quase caiu para trás, até que viu a data da postagem: no dia anterior ao óbito da amiga.

Instigado pela curiosidade, Bosco abriu o envelope com cuidado. Três folhas, frente e verso, a letra caprichada, o português correto, inúmeras palavras que encheram de lágrimas os olhos do comerciante. E, para fechar com chave de ouro, uma afirmação típica de uma mulher que passou anos ouvindo os mais variados tipos: “Sabe, meu amigo Bosco, sempre admirei a coragem e a disposição que esse povo tem de passar vergonha.”

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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