Curta nossa página


Da academia à excomunhão

A trajetória do teólogo que desafiou a cúpula da Igreja Católica

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação

O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, que teve sua excomunhão confirmada pela Arquidiocese de Brasília após aderir à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), possui um histórico de forte densidade intelectual e ampla circulação pela estrutura clerical tradicional. Nascido no ano de 1979 na cidade de Redenção do Gurguéia, no interior do Piauí, o clérigo trilhou um caminho que uniu o rigor acadêmico à militância nas alas mais conservadoras da Igreja. A sanção imposta pelo Vaticano colocou sua vasta bagagem teológica no centro de um embate institucional.

A relação de Françoá com a capital federal começou cedo, quando ele se mudou com os familiares para Brasília aos oito anos de idade. Na cidade, viveu toda a infância e juventude até decidir ingressar formalmente na vida religiosa. O passo inicial de sua caminhada eclesiástica deu-se no estado vizinho, quando se deslocou para a cidade de Anápolis, em Goiás, onde foi matriculado no seminário para dar início aos estudos de filosofia e teologia indispensáveis ao sacerdócio.

Sua ordenação presbiteral ocorreu em uma data de forte simbolismo mariano, no dia 8 de dezembro de 2004. A partir dali, o jovem sacerdote começou a acumular experiências em diversas frentes pastorais da região central do Brasil. Françoá atuou em paróquias da Diocese de Anápolis, passou pela estrutura da Arquidiocese de Brasília e trabalhou na Diocese de Itumbiara, no sul de Goiás, além de ter desempenhado atividades pastorais temporárias fora das fronteiras brasileiras.

Paralelamente às obrigações do altar, o sacerdote investiu fortemente na carreira acadêmica de alto nível. O ápice dessa jornada intelectual ocorreu no ano de 2011, quando ele obteve o título de doutor em Teologia pela prestigiada Universidade de Navarra, instituição de ensino espanhola. De volta ao Brasil, o título doutoral abriu as portas para que ele assumisse cargos de relevância no ecossistema educacional católico de Goiás.

Conforme apontam os registros biográficos disponíveis em plataformas públicas, Françoá atuou como professor na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Sua capacidade de gestão e articulação teórica levou-o a ocupar a cadeira de diretor-geral da Faculdade Católica de Anápolis no intervalo entre os anos de 2014 e 2018, além de ter integrado o corpo docente do Institutum Sapientiae. O próprio clérigo relatava que sua rotina dividia-se entre o magistério de disciplinas teológicas e o aconselhamento pastoral voltado a núcleos familiares e estudantes do meio universitário.

A guinada definitiva em direção ao tradicionalismo litúrgico radical começou a se materializar em maio de 2025, período em que o padre Françoá fundou a Capela Santo Atanásio, encravada na região administrativa de Ceilândia. A estrutura operacional e financeira do templo passou a ser gerida pela Associação Cultural Athanasianum, uma pessoa jurídica de direito privado instituída naquela mesma época com o objetivo expresso de manter os custos da capela e impulsionar novos projetos independentes de evangelização.

O novo centro religioso estabeleceu e declarou abertamente o que chamou de “laço de amizade” com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. O estatuto e as pregações de Françoá passaram a compartilhar de forma integral das mesmíssimas bandeiras teológicas e litúrgicas defendidas pelo grupo internacional dissidente. Essa aproximação institucional culminou em uma declaração pública feita pelo sacerdote piauiense em dezembro de 2025, durante a celebração de seu aniversário de ordenação.

Na postagem veiculada em suas redes sociais, o padre Françoá celebrou o marco afirmando que se encontrava “totalmente integrado na tradição católica”. O anúncio foi acompanhado de uma decisão prática imediata: o clérigo comunicou que passaria a celebrar os sacramentos de forma exclusiva por meio do rito tradicional tridentino. Ele deixou claro aos fiéis que não tinha a menor intenção de voltar a presidir as missas reformadas que foram adotadas globalmente pela Igreja Católica após as diretrizes do Concílio Vaticano II.

A ruptura formal foi sacramentada pela Arquidiocese de Brasília nesta segunda-feira (13). A instituição confirmou o decreto de excomunhão do teólogo e emitiu uma circular recomendando expressamente que os fiéis católicos da capital federal passem a evitar as atividades pastorais mantidas na capela de Ceilândia. O padre, por sua vez, gravou pronunciamentos rejeitando a punição canônica, classificando o ato assinado pela arquidiocese como uma medida jurídica “nula” e “inválida”.

O Vaticano sustenta que a Fraternidade São Pio X está formalmente “em cisma”, o que caracteriza uma separação jurídica total da comunhão universal da Igreja Católica. O movimento baseia suas pregações no retorno obrigatório das missas faladas em latim e no posicionamento do clérigo voltado de costas para os bancos da assembleia. O grupo rejeita frontalmente as reformas pastorais decretadas há seis décadas, além de combater o diálogo inter-religioso e a separação constitucional entre os poderes do Estado e da Igreja.

A atual crise internacional que tragou o padre de Ceilândia foi precipitada no dia 1º de julho de 2026. Nessa data, a fraternidade desafiou as ordens do Papa Leão XIV e realizou a ordenação irregular de quatro novos bispos em Écône, na Suíça, sob as lentes do fotógrafo Fabrice Cofrini, da agência AFP. A Santa Sé classificou a cerimônia como um atentado cismático automático e emitiu um comunicado alertando que todos os padres e leigos que aderirem formalmente à associação passam a compartilhar da pena de excomunhão.

O histórico de enfrentamentos da congregação tradicionalista arrasta-se por gerações dentro da Igreja. No ano de 1988, o arcebispo e fundador da linha dissidente, Marcel Lefebvre, já havia provocado uma excomunhão idêntica ao consagrar bispos sem o aval do Papa João Paulo II. Embora o Papa Bento XVI tenha revogado os decretos punitivos no ano de 2009 na tentativa de costurar um acordo de paz, a situação canônica do grupo permaneceu em situação de ilegalidade, culminando no atual racha definitivo que alcançou as periferias do Distrito Federal.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.