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Choque de realidade

Milionários e indiferentes, tem jogador ‘cagando’ para os sofridos torcedores

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Lembro da Copa de 1986, quando o Brasil perdeu nas quartas-de-final para a Itália de Paolo Rossi, mas seus jogadores foram recebidos e ovacionados por uma multidão que viu nos campos da Espanha uma equipe derrotada, mas lúcida, aguerrida e brilhante sob todos os pontos de vista. Foi uma das melhores de todos os tempos. A recepção aos elencos de 1970, 1994 e 2002 são referências, mas, como chegaram campeões, nada mais natural.

Da Seleção de 2026, a maioria vive na Europa e por lá ficou. Para eles, o chororô do povo torcedor não tem nenhuma importância. Poucos sabem quantos e quais retornaram ao Brasil. Ou seja, os milionários jogadores do Brasil não estão nem aí para o povo brasileiro. Tão ricos como os atletas brasileiros, os nossos algozes da Noruega chegaram em Oslo, capital do país, no dia seguinte à derrota para a Inglaterra. Como eles foram além do esperado pelos noruegueses, Halland e seus companheiros tiveram de remar com mais de 100 mil pessoas pelas ruas da cidade.

A chegada dos covardes ingleses não será diferente. Merecidamente derrotados, Harry Kane e companhia deverão transformar Londres e seus pubs em um mar de camisas brancas e vermelhas. Com os franceses, portugueses, marroquinos, egípcios, senegaleses e caboverdianos, croatas e belgas não foi diferente. As torcidas locais entenderam que suas seleções perderam, mas não se abstiveram de jogar. No Brasil, o distanciamento da Seleção com a sociedade é abissal.

Jogadores e povo não combinam mais há alguns bons pares de anos. Pesquisas recentes revelam que sentimentos como desconfiança, indiferença e críticas à falta de identificação e à passividade em campo superam o apoio incondicional que os “canarinhos” costumavam receber. Na prática, o divórcio entre atletas e torcida tem raízes profundas na cultura e na geopolítica esportiva. De cara, o fato de a maioria atuar no exterior impede o torcedor apaixonado de acompanhar o desenvolvimento de seus ídolos.

Também contribui para a consolidação desse fenômeno o estilo de vida distante e a ostentação de jogadores de elite. Por exemplo, Neymar Júnior apresentar seu novo iate de R$ 120 milhões logo após a desclassificação da Seleção nos EUA é muito mais do que um choque de realidade com o grosso da população brasileira. O país espera qualquer coisa de quem partiu. Portanto, pode até não ter sido de caso pensado, mas, para muitos, ficou claro o descaso do jogador com o desencantamento do povo.

Ainda mais relevante foi o uso da “amarelinha” como símbolo de movimentos políticos radicais e de patriotas fajutos. Embora achem o contrário, isso gerou rejeição dos verdadeiros patriotas e afastou parte significativa da torcida. Por fim, não há como deixar de comparar o atual “escrete” com os de outros tempos e de não perceber que estamos bem abaixo de potências europeias, da Argentina e da Colômbia em quesitos como posse de bola e eficiência. Sintetizando a peleja, a Seleção Brasileira morreu, mas passa bem. Ninguém sabe até quando.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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