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Cobrança indevida

A coragem de mudar de idéia

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma cobrança silenciosa para que a gente seja coerente.

Não coerente no sentido bonito da palavra.

Coerente no sentido de nunca mudar.

Como se mudar de opinião fosse uma derrota.

Como se rever uma ideia fosse sinal de fraqueza.

Talvez por isso eu admire tanto quem consegue dizer:

“Eu estava errada.”

É uma frase pequena.

Mas poucas pessoas conseguem pronunciá-la.

Na academia isso fica ainda mais curioso.

Passamos anos aprendendo a defender argumentos.

Esquecemos que um argumento bom também precisa saber morrer.

Pierre Bourdieu dizia que a Sociologia exige uma ruptura permanente com nossas evidências mais confortáveis.

Em outras palavras, estudar também significa desaprender.

Não existe pesquisa séria sem pequenas mortes.

A hipótese morre.

O conceito muda.

O autor preferido já não responde sozinho às perguntas.

A teoria precisa respirar.

Às vezes penso que foi isso que mais aprendi pesquisando saúde mental.

As pessoas mudam.

Os diagnósticos mudam.

As instituições mudam.

Até o sofrimento muda de nome.

Então por que eu permaneceria exatamente igual?

Outro dia me peguei discordando de um texto que eu mesma escrevi há cinco anos.

Minha primeira reação foi rir.

A segunda foi sentir orgulho.

Ainda bem.

Seria estranho passar cinco anos estudando e continuar pensando exatamente as mesmas coisas.

Há quem veja nisso incoerência.

Eu vejo movimento.

Talvez seja por isso que gosto tanto de conversar com pessoas que pensam diferente de mim.

Não para vencer um debate.

Mas porque, às vezes, elas carregam justamente a pergunta que eu ainda não tinha feito.

E perguntas sempre me interessaram mais do que certezas.

As certezas são confortáveis.

As perguntas constroem mundos.

No fundo, acho que amadurecer é isso.

Trocar algumas convicções por curiosidade.

E descobrir que mudar de ideia talvez seja uma das formas mais bonitas de permanecer fiel a si mesmo.

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