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Ânsia brutal

O homem que quis deixar de fumar

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Autor/Imagem:
Marco Oliveira - Foto Francisco Filipino

Era um dia diferente, queria deixar de fumar. Sentia-se cada vez mais ansioso, uma ânsia brutal roía-lhe por dentro, só mais um cigarro, só mais um cigarro, e depois daquele bendito café, naquele maldito café fascista, onde os donos só falavam de porrada aos migrantes, ele sentava-se na esplanada e ahhh, depois da agradável chicotada de cafeína saída do fundo da chávena do café italiano misturado com outras cenas escuras acendia o isqueiro mínimo e clic!,  ahhhhhhh, ó o doce sabor do fumo azulado a entrar-lhe veias adentro… era como um bálsamo de Deus enevoando-lhe a mente e tal…

Mas ao lado, nos planos invisíveis andavam seres estranhos.

Olha rapaz, fuma, fuma, fuma cada vez mais, malandro, vais ficar submetido a mim que te aspiro o fumo todo.

Eram espíritos obsessores que frequentavam o café fascista fascinados com a populaça alcoólica e fumante que por ali transitava falando mal de tudo, vendo a tv desgraça e falando mal deste e daquele como se fossem fazer uma revolução de copo de cerveja na mão, com os olhos vidrados cheios de vazio e um cheiro a povo requentado nas roupas lentas e desnodadas.

Ele ficou para ali, a fumar arabescos, a tragar o fumo escutando no interior de si mesmo medos, ameaças, soslaios de suspiros de sombras que cobriam toda a mesa da esplanada sem sol, era um deserto tudo aquilo, a calçada suja palmilhada por mil pessoas que nem olhavam para ele, a tv a debitar desgraças atrás de desgraças de modo a criar no inconsciente das audiências o medo e o vazio da pobreza mental e material, as pessoas eram trocistas, bisbilhoteiras ali no café fascista, sempre a falar mal do politico de esquerda que é mas é um grande aldrabão, por mim esses migrantes todos iam era para a terra deles, e a senhora de idade que servia cafés naquele mesmo café fascista era submissa ao olhar duro do patrão que tinha escondido por detrás do balcão um taco de basebol para colocar ordem no tasco caso aparecessem desordeiros e gajos da esquerda paneleira…

E ele ali, a fumar-se, devagar, como quem se deixa levar por ventos azuis sombrios, ouvindo os suspiros dos espíritos mal enterrados que se encostavam a ele como quem quer comer tabaco vivo vindo das goelas de um poeta á solta.

Ah… eu queria era deixar de fumar, disse ele á senhora de idade que lhe trouxe um copo de água, rapaz, esse vício é para a vida, dizia ela de olheiras sombrias, eu tentei deixar, dizia ela puxando mais um cigarro, mas nunca consegui, é muito difícil e, olha,  a gente vai morrer na mesma!

Ele tragou mais uns bafos do cigarro aceso e sentiu-se um prisioneiro daquilo tudo ali, do fascismo do vício, das correntes do conformismo, dos olhares que o evitavam porque ele era um fumador obsidiado por espíritos ruins que ninguém sentia, só ele, enquanto a brisa morta passava nos seus ombros como um chamamento para as mansões funéreas do vício quente.

O que fazer? Pensava ele preso na nicotina, preso na cafeína, preso na cidade viciada em vícios, preso no universo fora e dentro de si mesmo, preso na caixa fria do que pensava, olha, disse a senhora de idade apontando para uma coluna de granito onde estavam colocados os mortos do dia, vão haver mais dois funerais hoje, parece que aquele ali foi do tabaco e o outro foi de velhice, só faz falta quem está vivo, disse ela rindo-se funesta por entre o fumo azul que lhe escapava dos lábios secos de palavras…

Ele ficou ali, apagou o cigarro, bebeu o copo de água, levantou-se e foi-se pela rua cambaleando por entre sonhos partidos.

Que loucura é esta em que vivo? Interrogou-se ele. Estou completamente manietado por todos os lados, não tenho dinheiro para grandes viagens, as minhas grandes viagens são estas, um café, um cigarro, um copo de água, ver passar as pessoas perto da esplanada que me ignoram, escutar os sinos fúnebres das igrejas daqui perto dia após dia, sem esperança a não ser a minha ínfima força de reforma íntima que tenho de fazer para me livrar de todo este lodaçal do vício sem sentido.

Uma manhã acordou com um sonho na cabeça, alguém, depois de ele dizer uma oração em pensamento ainda com o corpo deitado na cama mole, lhe disse lá dos mundos espirituais, olha, persiste e deixa de fumar, deixa o novo entrar em tua vida, abdica do vício pois estás a diminuir os teus dias alimentando os fantasmas esfomeados que sempre te querem prejudicar…

Ficou na varanda de casa a olhar os prédios dos vizinhos, a ouvir as suas televisões ligadas dizendo coisas desconexas, ouvindo as suas conversas e discussões acesas acerca de não terem dinheiro para tantas contas que chegam, porra mulher eu não pago isto, paga tu, e era uma rebaldaria de tachos a voarem na cozinha, gritos, música da missa alta vinda do vizinho múmia que mal saía de casa, um cão a mijar enquanto salivava numa varanda sem sol, uma mulher com cara de cozinheira salário mínimo a falar ao telefone enquanto estende a roupa lenta ao vento cru, falando mal desta e daquele, ah o sacana pôs os cornos a ela e ainda se serve dela como empregada porra, e uns graffitis nas paredes com riscos que ninguém sabia entender, além disso era Sábado e mais algazarra viria á noite com os adolescentes vestidos de preto a falarem coisas grosseiras como motosserras a dilacerar as vidas privadas de quem tinham inveja, putos sem um tostão, agarrados a uma lata de cerveja dizendo mal de tudo e de todos criando lágrimas nas calçadas que sofriam por todo aquele reboliço.

Vou deixar de fumar! Disse ele olhando Vénus da janela perto dos prédios fálicos.

Atirou o maço de cigarros do terceiro andar para a rua e jurou para nunca mais estar naquela prisão do vício.

Logo os fantasmas esfomeados formaram enxames de pensamentos na mente dele sussurrando, vai fumar, vai fumar!

E ele, deitado na cama, enquanto na rua um néon piscava nadas e dias sem sol, introverteu-se, desceu para o fundo de si mesmo procurando a saída…

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