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Futuro amargo

Futebol brasileiro vive conflito de interesses

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Faz 24 anos e um dia que o Brasil não chega a uma final de Copa do Mundo. É bom nos prepararmos, porque, pelo andar da carruagem dourada dos jogadores, também não chegaremos em 2030, 2036 e 2040. Se tudo correr bem como espera o Ancelotti, talvez no século 22 d.NM, isto é, depois de Neymar Júnior. Melhor assim, pois permite aos brasileiros que gostam do bom futebol, do futebol-arte, a torcer sem estresse, sem blábláblás extremistas, sem preconceitos e, principalmente, sem rancores.

Ainda vivendo em função de um pentacampeonato que não assusta mais ninguém, o Brasil e boa parte dos brasileiros não escondem o incômodo com a possibilidade cada vez mais próxima de sermos ultrapassados por um daqueles países cujos jogadores, mesmo os milionários, respeitam seu povo, levam a sério o futebol e, antes do papel de garotos propagandas de bets, de compradores de iates, helicópteros, mansões e de namoridos de beldades siliconadas e emborrachadas da cabeça aos pés, se preocupam com a boa imagem de cidadãos.

Por que Alemanha, Itália ou qualquer outra seleção também não podem ser pentas? Se realmente não quiséssemos, que tivéssemos coragem e firmeza para cobrar dos jogadores mais empenhos, mais vontade e mais respeito aos torcedores dos clubes que os formaram. Seria essa a forma mais fácil e rápida de exigir de nossos arremedos de craques um mínimo de consideração por aqueles que gastam o que não podem para aplaudi-los pelos estádios do país e do mundo. Precisamos nos convencermos de que não somos mais os melhores do mundo. Provavelmente não seremos nunca mais.

Com o futebol brasileiro bem perto da extinção, restou a nosotros ligar a TV para, de um lado, assistir o ótimo time da Espanha e, de outro, o jogador mais completo, mais sério e mais objetivo do planeta na atualidade. Falar em extinção no Brasil não é apenas retórica. Historicamente, quase 20% das equipes que já disputaram a elite do Campeonato Brasileiro desapareceram. Recentemente, até gigantes europeus, argentinos, colombianos e uruguaios enfrentaram o risco de liquidação e queda para divisões amadoras. O River Plate da Argentina não me deixa mentir.

O cenário crítico do futebol mundial, notadamente o sul-americano e o brasileiro, é uma decorrência óbvia da realidade impulsionada por graves crises financeiras, má gestão, fusões esquisitas, falta de espaço para a prática do esporte e salários estratosféricos pagos a jogadores que, com muita benevolência, teriam de pagar para jogar. Por mais que não admitam, uma das principais razões da apatia de alguns dos clubes e da Seleção nacional atende pelo nome de urbanização. Para quem não conheceu o Brasil dos anos 60, 70 e 80, qualquer terreno baldio daquela época era transformado em um campinho de pelada.

Os espaços que restaram viraram conjuntos habitacionais para as classes média e baixa ou condomínios de luxo para os jogadores milionários. Por tudo isso, o que um dia foi espetáculo entre iguais para a massa, hoje não passa de conflito de interesses entre megaempresários do tipo Neymar pai e os pernas de pau em busca de imerecida fortuna. Como o desejo de enriquecimento e de esquecimento do povo é comum a todos, por que Alemanha e Itália não podem ser pentas e por que a Argentina não poderia ser tetra? Graças a Deus, não foi. E não foi porque torci a favor.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras 

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