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Bea e Alpha

A estrela e a arte de escutar

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

1.
Certa noite acordei com Alpha falando coisas estranhas.

— Mana, sabia que tão importante quanto estudar o funcionamento do corpo humano, dos órgãos, dos sentidos, é a gente perceber como eles influenciam a nossa percepção da realidade?

Na hora – ainda meio dormindo -, não entendi direito. Depois, com mais calma, Alpha foi me explicando com a língua das estrelas que ela me ensinou:

— A gente acha que tudo é realidade, é razão. Não é bem assim. Há a intuição em tudo, as percepções, os sentidos. Sem a gente entender os sentidos básicos, o mundo não tem sentido nenhum.

Naquela noite, Alpha estava mais para “professora” do que em todas as outras noites. Então me calei e fiquei ouvindo:

— Querida companheira, o corpo da gente tem parte que – para ser sincera -, não serve pra nada! Sobrancelha não serve pra nada. Verruga não serve pra nada. Unha do pé não serve pra nada. Umbigo serve apenas para a gente viver dentro da mãe da gente e depois: NADA! Nem queixo! Nada, nada mesmo…

Definitivamente, minha estrela única havia bebido ou estaria metida com drogas mais pesadas. E prosseguiu:

— O queixo só serve pra pendurar a barba ou para coçar na prova de matemática quando a gente não sabe nada e nem tem ideia de como resolver aqueles problemas aritméticos. A orelha, por exemplo, serve pra tanta coisa… Ninguém lembrou de fazer uma homenagem só para as nossas orelhas. Nossas orelhas são fundamentais, pois oferecem vantagens incríveis na vida: um gato, por exemplo, está tranquilo deitado de barriga pra cima espiando as moscas voando no ar. De repente, fica de orelha em pé. É feito um sinal. Alguma coisa mudou ou vai acontecer: alguém que entrou no quintal, um rato que passou atrás do balcão, o pai chegando de volta do trabalho ou apenas o gato quer comida. Querida parceira, preste atenção no lance: teu avô me ensinou um dia que o segredo da orelha depende de como a gente sente e usa. Disse que quando a gente vê um programa de TV chato ou um filme sem qualidade a orelha aumenta. Dei risada do vovô. Parece mentira, mas ele estava certo. Fiz o teste. Medi minha orelha com uma régua. Tinha 3,77 cm. Liguei a TV e botei no programa mais chato. Assisti durante quase quinze minutos. Medi a orelha de novo. Estava com 4,77 cm! Fiquei apavorada. Olhei o espelho. Medi de novo. Fui chorando falar com mamãe. Ela me mandou ir depressa mudar de canal e assistir um programa bem legal na TV, que me fizesse dar risada. Deu certo! Agora a minha orelha voltou ao normal: 3,77 cm. A nossa vizinha, Dona Lúcia, pensa que a orelha só serve pra pendurar brinco ou segurar óculos. O seu Otávio, dono do açougue, sabe mexer as orelhas como se fossem asas, sem botar a mão; parece mágico. Fora isso, quando alguém fala mal de outra pessoa, essa pessoa pode ficar com a orelha vermelha mesmo sem saber. A orelha da Teka, minha amiguinha da escola, vive vermelha. Às vezes acho que a Teka preferia ter nascido sem orelha. É que o pai dela parece um maluco: por qualquer coisinha ele tem a mania de puxar a orelha da Teka.

2.
Continuei sem saber o que dizer para Alpha. Ela estava tão entusiasmada naquela noite que eu nem saberia como interrompê-la. Pensei um pouco e disse:

— Você precisa conhecer a Luíza, a menina que tem as orelhas mais bonitas de minha classe.

Alpha respirou e pediu que eu continuasse.

— Ah! Todos dizem que as orelhas da Luíza são lindas mesmo! Pena que ela é muito chata e fica o tempo inteiro arrumando os cabelos atrás das orelhas para que elas apareçam mais e mais. Coisa chata! Depois me deu uma vontade de saber mais sobre orelhas. Fui perguntar pra professora porquê que o livro da gente também tem orelha. Ela me chamou a atenção e disse que era porque a gente não cuidava bem dele!

Alpha me ouvia com atenção. Parou um pouquinho e me questionou:

— Uma coisa é certa, Mana: se a gente não tivesse orelha e ouvido não ia escutar nada e a vida ia ser mais silenciosa que uma igreja abandonada. ´

Pensei um pouquinho e concordei. É gostoso ficar ouvindo o som dos passarinhos quando a gente acorda. É gostoso ouvir a chuva caindo durante a noite. É gostoso ouvir o sinal quando chega o final da aula. É gostoso ouvir o barulho das ondas do mar quando vou passar as férias com o papai e mamãe em Florianópolis. E quando o locutor da rádio ou da TV gritou um gol do São Paulo, então?! É mesmo muito gostoso. É delicioso escutar música. A minha casa, às vezes, parece uma loucura. Todo tipo de música. Minha avó gosta de música italiana, minha mãe da Ana Carolina e eu sou Lenine. Resultado: vira uma salada de frutas e de sons! Mas é muito legal.

3.
Nisso, Alpha me interrompeu pra mudar o assunto de rumo:

— Tá, querida… Mas é verdade que também existe barulho chato, não?

Tomei um choque; não havia pensado desta forma. Claro que existiam sons muito chatos também.

— Caramba, Alpha! É verdade… Sirene de ambulância é chata. Tiro da polícia ou dos ladrões também. Motor de caminhão ou de moto alto é horrível. Miado de gato na madrugada é de matar!

— Pois, então, querida, quem fala o que quer, ouve o que não quer… A vida é assim mesmo. O mais gostoso para as orelhas e nossos ouvidos é escutar histórias. Escutar é uma linda e difícil arte.

…………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, pesquisador. A crônica aqui publicada hoje integra o livro (em produção), “ALPHA, A ESTRELA D’ALMA”, com histórias e fábulas da menina BEATRIZ (Bea) e a sua estrela confidente, a Alpha. O autor vive há quatro anos na pequena vila de pescadores e turistas da Guarda do Embaú, no Sul de SC.

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