Curta nossa página


Até tudo acabar...

Mundo vive guerras como uma rotina sem solução

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Enquanto organizava as notas desta semana, percebi que o que mais chamava atenção já não eram propriamente as guerras. Era a naturalidade com que elas apareciam umas ao lado das outras, como se fizessem parte da rotina internacional.

Nos últimos dias, o Estreito de Ormuz voltou a registrar ataques contra embarcações. Um navio carregado de milho foi atingido no Mar Negro. Taiwan denunciou o aumento da presença de embarcações chinesas em torno da ilha. Nenhum desses episódios é pequeno. Todos têm potencial para afetar o comércio internacional, os preços da energia, o abastecimento de alimentos e a estabilidade regional. Ainda assim, a sensação é de que atravessaram o noticiário com menos impacto do que provocariam algum tempo atrás.

Talvez porque a guerra tenha deixado de parecer uma exceção.

Não faz muito tempo, bastava uma ameaça ao Estreito de Ormuz para provocar uma corrida ao petróleo e abrir telejornais no mundo inteiro. Hoje, o mercado continua acompanhando cada movimento, mas já procura distinguir aquilo que realmente altera o cenário do que representa apenas mais um capítulo de uma crise prolongada. As empresas reorganizam rotas. As seguradoras recalculam riscos. Os governos reforçam alianças. A vida econômica segue tentando se adaptar a um ambiente que deixou de ser transitório.

Foi justamente essa impressão que ficou da apuração desta semana.

Os conflitos continuam avançando, mas mudaram de foco. Já não disputam apenas cidades ou fronteiras. Disputam portos, estreitos, corredores marítimos e rotas por onde circulam petróleo, grãos e mercadorias. O controle desses caminhos passou a ser tão estratégico quanto o controle do próprio território.

Talvez seja por isso que a guerra pareça menos visível. Ela deixou de interromper a rotina. Aos poucos, passou a reorganizá-la.

Não há nada de normal nesse cenário. Os conflitos continuam produzindo vítimas, deslocando populações, destruindo infraestrutura e impondo custos cada vez maiores à economia mundial. O que mudou foi a nossa percepção. Depois de tantos meses convivendo com crises simultâneas, passamos a incorporá-las ao cotidiano com uma rapidez que impressiona.

Talvez essa seja a mudança mais silenciosa do nosso tempo. As guerras continuam extraordinárias para quem as vive. Para o restante do mundo, começam a fazer parte da rotina.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.