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Roda de samba

Passos e descompassos

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Lorena e Miguel, a princípio um casal improvável, se esbarraram em uma roda de samba no Bar do Bosco. Ela, um tanto exuberante, parecia mais interessada nos bambas do local. Já o sujeito, cuja barriga proeminente o fazia se encolher em timidez, preferia se ater a olhares sobre aquela gente.

Coube à bonitona a iniciativa, mesmo que, caso lhe fosse perguntado, era provável que ela não soubesse apontar o motivo. Combinações esdrúxulas que aparentemente não se encaixam.

— Tu dança ou só fica com o traseiro colado na cadeira?

Miguel, que se confundia com os próprios pés, sorriu. Nisso, foi puxado pela mão.

— Vem, que te ensino a requebrar gostoso.

E lá foi o homem sem jeito para a coisa. Não se saiu tão mal, pelo menos aos olhos interessados da Lorena. Depois de alguns passos e descompassos, além de vários goles de cerveja, os dois terminaram na cama. E foi assim que o romance se iniciou.

Dois anos de amor regado a pagode, cerveja, suor e beijos ardentes sob lençóis indiscretos. Aquela paixão fogosa, sem amarras, como se o amanhã fosse mera ilusão. Tanta felicidade, que ninguém poderia supor o que estava por vir.

Aconteceu em uma noite de sexta-feira, perto das dez horas. O samba rolava solto no Bar do Bosco, o casal ainda no lar, doce lar.

— Ué, Miguel, tu ainda não tá pronto?

— Ah, meu amor, hoje não tô a fim. Acho que tô com indisposição.

— Indisposição? Tu tá doente ou o quê?

— Num sei. Só não tô a fim mesmo.

Nada no sábado também. Domingo, então, era dia de recolher os atrevimentos para suportar a labuta da semana. Mas o pior mesmo foi a avalanche de críticas que o Miguel começou a derramar sobre a companheira.

— Lorena, tu precisa mesmo usar essa saia? E pra que tanta tinta na cara? Cerveja também não é legal. E esse samba… Ih, isso é coisa que não presta!

Lorena, olhos sem aquele sorriso costumeiro, foi trabalhar na segunda-feira. Quem logo percebeu a carranca no rosto da jovem foi a Shirley, prima e colega na empresa.

— O que foi, mulher? Que cara de coxinha sem catupiry é essa?

— Ah, Shirley, nem te conto.

— Pois conte, que tu sabe que sou da fofoca.

— É o Miguel. Acho que ele arrumou outra.

— Outra? Duvido! O problema do seu homem é muito pior, Lorena.

— Pior?

— É! Pensei que tu já estava sabendo.

— Sabendo o quê, mulher?

— O seu Miguel virou crente.

Lorena quase caiu dura.

— O quê? Não pode ser! O meu Miguel?

— Sim, amiga. O seu Miguel.

— Eita! Agora que a coisa complicou de vez. Com mulher até que dá pra competir, mas com Jesus… Ih, assim nem tem competição.

E foi assim que o romance terminou. Cada um seguiu seu caminho e, apesar de tudo, dizem que ainda se falam quando se esbarram na calçada.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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