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Um bom partido

Quase no ponto: uma proposta irrecusável

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Eu estava olhando pela janela da sala. Suas duas folhas de madeira, pintadas de um vermelho indizível, abriam-se para fora. Reparava no beiral carcomido, no pouco movimento da rua, num carroceiro que passava com a carroça cheia de verduras e no cavalo magro que a puxava. Fazia quase noite, e a umidade do ar, misturada ao cheiro de plantas, me oprimia.

O barulho insistente da máquina Singer era quase hipnótico, ecoando numa espécie de vai-não-vai pela saleta. Era sempre aquele movimento circular, que começava a metralhar toda vez que Nilza acionava o pedal. Ia do adagio ao presto: um exército inteiro avançando sobre os inimigos.

Fiquei reparando nos pés de Nilza, encaixados nos sapatos pretos. Um tanto gastos. As meias cobriam as canelas roliças e os joelhos; acima deles, o fim das meias deixava entrever, vez ou outra, um pouco das coxas, antes que tudo fosse coberto pelo vestido, um dos mais curtos que usava.

E costurava, costurava…

Tinha o rosto tão concentrado que a boca parecia esquecer-se aberta. Com as mãos ágeis, de vez em quando apanhava uma tesoura e, num golpe rápido, cortava a linha. Depois, voltava a costurar, costurar. Os exércitos em marcha, ao ataque, ra-ta-tá…

Ao lado dela, largada numa poltrona com um romance na mão, dona Fichú, tia de Nilza. Não via direito se ainda lia. As pálpebras lhe pesavam, e os olhos estavam quase fechados. Vi que adormecera quando pousou o livro delicadamente no colo e o beiço abriu-se um pouco.

Aproveitei o sono da velha para me achegar a Nilza. Ela, indiferente aos meus apelos, tocava a máquina.

Raios, o que tanto costurava aquela mulher? Enxoval? Roupa branca?

Fiquei ali de pé, perto dela. E reparei mais uma vez nos cabelos presos num coque atrás da cabeça, com um prendedor da cor de uma concha do mar. A nuca nua, as orelhas. Que orelhas interessantes as de Nilza, rematadas por diminutos brincos de água-marinha.

O rosto talvez não fosse tão belo, mas eu estava acostumado. Definitivamente, era até um pouco feia. Muito espaço entre o nariz e o lábio superior. Os olhos grandes demais. Sim, era feia, no geral, a pobre Nilza.

Mas era um rosto parecido com lar.

Os ombros muito brancos, o colo. Os braços ágeis. As mãos compridas, rematadas em dedos igualmente compridos, com unhas pequenas, esmaltadas de azul.

Cheguei tão perto que podia ouvir sua respiração quando o ra-ta-tá da máquina parava. Dona Fichú dormia e ressonava. E eu, mais uma vez, ainda que corresse o risco de irritar minha anfitriã e boa amiga, insisti:

— Acho que devias considerar a vantagem do que te proponho. Será tudo mais fácil. E podes trazer a tia. Haverá sempre lugar.

Ela respondeu sem tirar os olhos da costura:

— Ah, se fosse assim fácil. E depois? E quando enjoa? A gente fica sem eira nem beira…

— Mas eu não enjoo. Palavra. Tu vens para ficar. Começamos vida nova, aqui mesmo na cidade, se quiseres. Ou no campo, que é mais arejado. Não há esse cheiro sufocante.

Lá fora, o calor úmido da noite chegada se conservava. Não dava um vento sequer.

Dona Fichú dormia. Soltara o romance sobre o colo vasto.

Continuei tentando convencer Nilza:

— Ademais, se quiseres, poderemos ter filhos. Não faço questão. Prefiro me devotar a ti. Terás tudo. Levamos a máquina. Levamos teus móveis, as coisas de que gostas. Fica decidido assim. Até aquela menina que ajuda vocês aqui.

— A Verinha?

— Isso. A morena. Leva-se a morena. Ficamos todos lá na fazenda. Tu, dona Fichú e a Verinha.

— Não sei… Nunca pensei em casar.

— Não pensaste em casar comigo ou não pensaste em casar?

— Não sei. Preciso de tempo.

— Está bem. Toma este tempo, então. Mas olha, não demores. A oportunidade não passa duas vezes.

Joguei esse blefe na cara de Nilza. Ela sequer esboçou reação. Era como se não me levasse a sério ou estivesse com o pensamento longe, fingindo que me ouvia ou que acreditava na sinceridade de minhas intenções.

Fazia alguns meses que queria me casar. Com uma mulher boa, que entendesse de todo serviço e pudesse mandar numa casa.

Pensei, primeiro, numa viúva que andava ali pelos seus trinta e poucos anos. No entanto, não pareceu convir, pois já estava velha. Depois, havia a filha do Francisco, dono da botica. Mas me pareceu ingênua demais. Andava pelos treze anos. Teria de esperar, no mínimo, mais uns dois para casar, e eu queria adiantar o serviço.

De minha parte, já andava pelos trinta e sete, caindo de maduro. Ficara noivo quando tinha uns dezenove, mas a pobre coitada se foi na epidemia de gripe espanhola. Os pais dela ainda me ofereceram a irmã caçula, mas esta nunca me agradara. Era feia e intrigante. Saí daquele meio o mais rápido que pude.

Uns tempos depois, pus os olhos em Nilza. Vivia naquele sobrado da Rua da Estação. Era honesta. Tinha, decerto, qualidades. E, entre algumas xícaras de café e aquela conversazinha de cerca-lourenço, eu vinha introduzindo minhas ideias de compromisso.

Viviam ali ela, a velha Fichú e a morena trigueira, de quem, na época, eu não sabia direito o parentesco. Depois foi que descobri. A tal Verinha era prima. Distante. Era sobrinha-neta de Fichú, que, ademais, se chamava Elvira.

Eu, herdeiro de uma certa fortuna, estava em boas condições de vida. Tinha mais de quinhentas cabeças de gado, além de outros equinos e muares. Vivia numa fazenda a doze léguas da cidade.

Na casa da fazenda havia vinte e oito cômodos…

Vinte e oito.

Podia-se dormir cada noite num quarto diferente e não repetir nenhum durante quase um mês. Herdara todos os trastes da casa. Tinha tudo. Eram antigos, mas eu podia comprar novos, tudo o que Nilza quisesse. Era uma boa posição que lhe oferecia.

Além disso, eu era bem-apessoado. Sim, não era de se jogar fora. Magro, alto, desempenado. Um queixo regular, os olhos no eixo. Um bigode meio louro que eu cultivava. Cabelos que me sobravam na fronte. Ora, eu tinha espelho em casa. Se eu fosse repelente, ainda vá lá. Mas não era o caso.

Nilza só teria vantagens. Haveria de ser senhora de posição, pois a gente grada local vivia me cortejando para que tomasse partido aqui ou ali. É óbvio: eu tinha dinheiro.

É certo que o dinheiro não viera pelo suor do meu rosto. Era fruto de duas ou três gerações anteriores a mim, que o haviam acumulado à custa de muito trabalho. E até de um pouco de exploração, devo confessar.

Mas o que é este mundo, desde sempre, se não a exploração do fraco pelo forte?

Não me cabia culpa na ordem da criação. Coube-me ser filho único e a orfandade prematura para me tornar dono de tudo. De mão-beijada. Jamais calejei as mãos, mas tive tino suficiente para levar adiante o rebanho e acumular outro tanto além do que herdara.

Agora era hora de dividir esse privilégio com a mulher que eu escolhesse.

Dias depois, quis sondar novamente. Apareci na hora do costume. A casa estava sempre aberta para mim. Isso aumentava minha esperança de que Nilza aceitasse minha proposta, embora nunca tivesse sido clara ao responder. Eu tinha certeza de agradar dona Fichú, que tinha ascendência sobre a moça.

— Reflita bem, Nilza. É boa a posição que te ofereço. Um vidão. Melhor do que ficar aqui medindo bainhas. Tu costuras para fora, não é isso?

— Também. Faço uns serviços para as pessoas mais próximas. Sempre que posso.

Ora essa, o que eu estava a oferecer era muito melhor do que ela possuía. Não passaria qualquer necessidade. Trabalhar? Só se fosse como trabalham as damas de caridade para a gente mais necessitada das redondezas. Fazendo enxovais para os filhos naturais das crioulinhas. Nunca por necessidade.

O que tanto costurava aquela mulher? Como poderia ser melhor a incerteza da vida, ganhando uns caraminguás com a costura, em vez de aceitar logo a proposta que eu fazia?

Tinhosa. Era tinhosa, decerto. Mas eu era a opção mais vantajosa. Haveria, uma hora, de quebrar-lhe a resistência.

Joguei um verde para a velha:

— A senhora não se incomoda de eu vir sempre, não é, tia Fichú? Venho tentar amolecer a cabeça dura dessa sua sobrinha. A senhora não acha que ela devia casar comigo?

— Ah, seu moço, ela deve resolver o que a deixar feliz. Mas faço gosto, sim. Quem não faria? Se fosse pela minha vontade…

— Pois é. Digo sempre a ela. Só há vantagem.

Nilza, sorrindo, servia o café e partia a broa de milho, ainda fumegante. Descansava de comandar seu implacável exército e vinha sentar-se junto a nós, perto da sacadinha.

Naquele dia, a morena também estava na sala. Fiquei reparando em seus gestos. Era elegante, sem dúvida. Vestia um vestido florido, claro, que contrastava com sua pele acobreada. Tinha braços bonitos. Unhas bem-feitas. A boca era certa; o nariz, agradável. Os cabelos cacheados estavam presos por uma fita. Os ombros largos. O passo certo.

Nilza não era propriamente bonita. Apenas me acostumara a ela. Mas a morena, esta sim, era bonita. Vistosa. Daria uma esposa e tanto.

Aquilo apenas me passou pela cabeça. Preferi ater-me ao caminho que já vinha preparando.

As semanas se passavam, e o ritual se repetia. Nilza ora parecia mais receptiva, ora mais distante. Quando eu a visitava, no começo parecia disposta à conversa. Respondia às minhas indagações. Falávamos sobre vários assuntos: a função de uma dona de casa, o modo de criar os filhos, a obediência da esposa.

Ela sempre terminava sem dizer nem que sim, nem que não.

Certa feita, falamos sobre o voto feminino. Ela era favorável. Eu tinha minhas reservas.

— Foi uma bela conquista. Seu Getúlio é que o garantiu. Uma coisa boa, sim senhor.

— Um absurdo. Pode provocar desagregação na família. Ainda bem que é facultativo. Imagine? A mulher e o marido votando em partidos distintos? Quando a mulher é sábia, deve votar em quem o marido manda. Ou, se for mais sábia ainda, nem precisa votar. Deixa que o cabeça do casal resolve essas coisas. A mulher deve cuidar da porta da casa para dentro.

Eram exatamente essas as minhas ideias. Para que forçar a mulher, com sua natureza frágil, a precisar de uma direção forte, a se preocupar com esses assuntos mundanos? Deixasse o voto para o elemento masculino.

Dona Fichú sorria; parecia concordar plenamente comigo. Nilza quis introduzir a morena na conversa:

— E tu, Verinha, o que achas?

— Eu nem acho nada. Ainda não havia atinado nesses assuntos, acreditam?

Verinha tinha um temperamento mais manso, era de se ver. Nilza, às vezes, encasquetava com umas bobagens. Falava em emancipação feminina, em garantir igualdade de condições no trabalho da mulher.

Vi, ao acaso, numa daquelas visitas, sobre uma pilha de revistas de moda das quais ela copiava modelos, um panfleto feminista. Não entendi direito o que era aquilo. A morena parecia ser, neste ponto, até mais arrazoada.

Um dia, estava eu na fazenda, envolvido com uns negócios de gado, quando vi passar, pela porteira mais próxima da casa, uma charretinha conduzida por um moleque conhecido da cidade. Verinha vinha ao lado dele.

Fiquei curioso com a visita.

Quando se aproximaram, ela apeou. Os cachorros, soltos no terreiro, latiram ao ver gente que não era de casa. Fui correndo lá fora, curioso para saber por que vinha. A morena tinha os olhos aflitos.

— Seu Agenor! Acode, seu Agenor.

— O que há, dona Verinha?

— É Nilza. Ela não está bem. Dona Fichú mandou que eu viesse avisá-lo. Ontem de manhã, ela não conseguiu se levantar. Passou o dia gemendo. Depois, começou a ficar meio abobada, não atinava com as coisas. Desde que anoiteceu, não fala mais com a gente. Vem ver ela, seu Agenor.

Mandei selar o cavalo e cheguei à cidade muito antes da morena, que voltava na charrete. Subi as escadas do sobrado e vi dona Fichú rezando em frente ao oratório, debulhando-se em lágrimas. Lá dentro, o doutor Raul de Mendonça, um dos melhores médicos da região, aplicava uma injeção em Nilza.

Ela me pareceu muito mal.

— Uremia, seu Agenor. Veio de repente.

Ela já estava inconsciente. Parecia desprender-se do mundo. Balbuciou ainda coisas que não compreendi. Resistiu mais umas quatro horas e se foi para sempre.

Dona Fichú e Verinha ficaram doidas. Era de cortar o coração ver aquela cena. Sobre a mesa da sala, permaneceram as coisas que ela estava costurando. Na véspera ainda trabalhava e, de repente, ficou daquele jeito. Não houve recursos que a salvassem.

Eu disse às mulheres que não se preocupassem. Cuidaria de tudo.

E cuidei.

Velório, procissão do enterro, jazigo perpétuo novo, que a família não tinha. Depois, mandei fazer uma bela lápide para Nilza, com um retrato de louça e um anjo na cabeceira do túmulo, apontando para o céu.

Deu pena. Tanto potencial desperdiçado, moça cheia de prendas. Insensata em algumas coisas, mas nada que resistisse a uma boa direção. E, afinal, partiu sem que eu a convencesse a se casar comigo.

Morreu solteira.

Que desperdício.

Passou um tempo. Verinha, que eu até cogitara como esposa, engraçou-se para o lado de um tenente. Disseram até que ele era casado, mas isso era o de menos. Uma noite, ela partiu com ele da estação, num rápido que seguia para o Rio de Janeiro, e nunca mais soubemos dela.

Ficou sozinha a velha Fichú, coitada. Andei mandando uns mantimentos para ela, pois sei que as coisas ficaram difíceis. Não me custava essa caridade.

Àquela altura, a filha do boticário já estava com quatorze anos completos.

É…

Quatorze.

Estava quase no ponto.

Já valia a pena esperar.

…………………….
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi

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