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Maldita moral

O peso da consciência

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Ernesto e Augusto, amigos há tanto tempo, agora no crepúsculo da existência, insistem em manter o hábito dos encontros às terças e quintas-feiras. Os dois precisam enfrentar a artrite para se deslocarem até a padaria do velho Manoel, português radicado no Brasil quando as liberdades eram desprovidas de asas.

— Ando sem apetite.

— Velhice é assim, Augusto.

— Como assim?

— Sem apetite. Juventude é que é gulosa.

— É verdade. Nunca havia pensado por esse ângulo. Queria eu ter o apetite dos meus trinta. Falta-me ânimo para tantas coisas, meu amigo. Até mesmo para devorar uma coxinha, mas nem me atrevo. Capaz do meu estômago me processar.

— Capaz, Augusto. Capaz.

Os dois homens são compelidos a mais um gole no café. Observam o movimento na padaria, praticamente os mesmos clientes de ontem, de sempre.

— A moral às vezes atrapalha.

— O que você disse, Ernesto?

— A moral, meu amigo. A moral. Essa coisa que fica à espreita e não perde a oportunidade de entornar o caldo.

— Não estou te entendendo.

— Olha, Augusto, veja esse caso. Aconteceu há poucos dias, sexta-feira passada. Minha nora, a Gláucia, você a conhece.

— Sim, sim, conheço a Gláucia, esposa do Rubens.

— Pois a Gláucia, mulher do meu filho… Descobri que… Situação complicada, tudo por causa dessa maldita moral, que me cobra atitude nesta altura da vida. Minha nora trai o meu filho. E agora?

— Complicado, meu amigo. Muito complicado.

— Melhor seria não ter visto. Pior de tudo é que ela me viu também. E, desde então, vivo num impasse, Augusto. Devo eu contar o que sei pro meu filho ou, então, guardar o segredo da minha nora para salvaguardar os que amo?

— Nem sei o que eu faria no seu caso, meu amigo. Decisão complicada.

— Pois é, Augusto, mas tenho relutado em atender aos chamados insistentes dessa tal moralidade. E é isso que tem mantido a paz da minha família.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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