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Ingleses e franceses

Chevauchée

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Jogo Inglaterra x França – uma disputa pelo 3º lugar, destinada a ser burocrática, tediosa, acabou se tornando uma das mais dramáticas da Copa do Mundo de 2026.

Final do primeiro tempo, Inglaterra 4 x França 0, um massacre. Início do segundo tempo, gol da França, depois outro…

— Quem foi o fiodaputa que acordou os malditos franceses?

Essas palavras raivosas foram pronunciadas pelo espírito de Eduardo de Woodstock, príncipe de Gales, conhecido como Príncipe Negro. Em vida, fora um dos responsáveis pelas vitórias inglesas na fase inicial da Guerra dos 100 anos, nas batalhas de Crécy (1346) e Poitiers (1356), na qual capturou o rei da França, João II, e seu filho, o príncipe Filipe; nos últimos 100 anos, apaixonara-se pelo futebol, visto diretamente do plano astral inferior em que se encontrava (não o “inferno”, mas quase tão ruim quanto, senhores feudais não vão para o “céu” nem que a vaca tussa), e sofria com a sucessão de derrotas do english team em confrontos decisivos.

— Al…Alteza — gaguejou um dos cavaleiros da minicorte do príncipe naquelas paragens inóspitas, também fã ardoroso do esporte bretão –, estávamos ganhando por 2 x 0, mandei mensagem telepática para que intensificassem sem piedade a chevauchée. — E tentando justificar-se, acrescentou:

— Afinal, foi assim que Vossa Alteza conquistou a esplêndida vitória em Poitiers…

O príncipe parou para refletir. Era verdade, meses antes da batalha, suas tropas haviam realizado uma chevauchée (cavalgada, em tradução livre) pelos campos franceses. O termo designava uma política de terra arrasada, em que o exército atacante destrói plantações, portos pesqueiros, fortificações e aldeias do inimigo, tudo para empobrecer os nobres da região devastada e levá-los a pressionar o monarca para travar combate. A coisa funcionara em Poitiers, mas Eduardo sabia, melhor do que ninguém, que se os franceses tivessem comandantes mais hábeis, os ingleses teriam se lascado.

— Entendi – rosnou o Príncipe Negro. — O problema é que a chevauchée funcionou, os franceses entraram na batalha, quer dizer, no jogo…

E como entraram! Aos 66 minutos da partida, gol da França, o terceiro. Uns 20 minutos depois, um pênalti convertido mudou o placar, Inglaterra 5 x França 3. O alívio, porém, durou pouco; minutos depois, mais um gol da França, o quarto. O empate, e quem sabe a virada, parecia uma questão de tempo. Os ingleses não rezavam, pega mal rezar no “inferno”, mas torciam que nem uns desesperados.

Nesse momento, o espírito de um nobre gascão aproximou-se do Príncipe Negro. Em vida, fora João III de Grailly, reinara sobre o captalato de Buch (o captalato era uma província da Aquitânia, hoje parte da França) e tivera um papel decisivo na vitória em Poitiers.

— Alteza, peço permissão para entrar em campo, encostar em um daqueles plebeus e, com a ajuda de deuses ou demônios, tanto faz, consolidar nossa vitória.

O captal de Buch não acrescentou “Como fiz em Poitiers”. Mas o príncipe entendeu o recado e concedeu-lhe permissão.

Moçada, uma confissão: não sei se o captal encostou mesmo em algum atleta do english team, e muito menos se teve participação no gol de placa de Bellingham. Li sobre o que aconteceu na batalha de Poitiers e assisti, encantado, à obra-prima do atacante. E, a meu ver, as duas situações têm aspectos em comum.

Em Poitiers, à frente de apenas 160 anglo-gascões, entre os quais cem arqueiros ingleses, o captal realizou um longo e furtivo deslocamento até a retaguarda francesa e atacou. Surpreendidos, os franceses sofreram grandes baixas e começaram a debandar. Foi uma ação limitada, em pequena escala, mas que semeou o pânico, desarticulou a ofensiva da França e contribuiu decisivamente para a vitória inglesa.

Já no Hard Rock Stadium, em Miami, aos 98 minutos do jogo, o camisa 10 inglês Jude Bellingham dominou a pelota na direita da defesa da França e deslizou para o centro da área, esquivando-se dos adversários, até chutar e marcar um golaço, o sexto de sua equipe. Foi uma ação isolada, individual, o que talvez a coloque em ressonância com a iniciativa em pequena escala, mas igualmente decisiva do captal de Buch. Foi o que me levou a escrever estas maltraçadas.

O placar final, Inglaterra 6 x França 4, provocou uma explosão de alegria dos ingleses no estádio e mundo afora, e outra, comparável, entre as alminhas dos veteranos anglo-gascões de Poitiers. O que confirma que o futebol pode ter a dimensão épica de uma batalha.

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