Curta nossa página


Dona Pata

As aventuras de Vó e seus patinhos

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Se eu fosse contar quantas vidas já gastei, misericórdia… Acho que nem teria saído da terceira infância. Chega mais que vou te contar uma.

Minha avó era foda. Medo? Ela não conhecia essa palavra. A baixinha era peituda. Não de peito, mas de coragem.

Ela saía com a criançada toda e tinha tudo sob controle. Nem vou dizer quantos éramos, porque parecíamos a Dona Pata desfilando com seus patinhos.

Ano-Novo e férias tinham destino certo: ou serra ou praia. E lá íamos nós, felizes da vida. Cada um carregava seu mochilao com os itens rigorosamente contados, desde as calcinhas até a toalha de banho.

Antes de sair, vinha a reunião oficial das orientações. E era uma lista interminável de “nãos”. Não estava com fome, mesmo que estivesse.

Não sabia de nada, mesmo que soubesse. Não aceitava nada de ninguém.

Não saía de perto da velha por motivo nenhum.

Olha… era tanta recomendação que ela descrevia uma situação e, quando a pessoa aparecia, a gente já sabia quem era só pelas características.

Pensando bem… nesta sessão de desabafo, percebo que herdei boa parte dessas manias. Meus alunos que o digam… Pois bem. Crianças conferidas, mochilas nas costas e seguimos para a estação de trem.

Destino: Miguel Pereira.

Com direito à clássica baldeação em Japeri. Quem nunca? Rs.

A viagem seguia tranquila até passarmos por uma estação onde o trem costumava lotar. De repente, ouvimos um alvoroço no fim do vagão.

— Fogo!

E qual era a principal orientação da velha?

1. Nunca saia do trem.

2. Só desça na estação final.

Pronto. Foi o suficiente para instalar o caos.

Gente correndo para um lado, correndo para o outro… e um dos patinhos resolveu fazer justamente o contrário do combinado: desceu na estação seguinte.

O trem ficou parado por alguns minutos. No fim das contas, não havia incêndio nenhum. O único fogo era o do desespero das pessoas correndo sem saber exatamente do quê.

Quando finalmente chegamos a Japeri, alguém perguntou:

— Cadê o Dedê?

Minha avó congelou. Contou uma vez.

Contou de novo.

Olhou para um lado, para o outro… Nada do Dedê.

Sem perder tempo, deu a ordem:

— Vocês seguem viagem. Eu volto para buscar o menino.

Descemos, pegamos a van para Miguel Pereira e seguimos para o ponto de encontro de sempre: a Praça da Ponte. Ali não tinha erro.

Enquanto isso, a velha voltou no mesmo trem até a estação onde o Dedê havia desembarcado. Encontrou o fugitivo são e salvo e retomou a viagem.

Quatro horas depois, eles chegaram. Dedê apareceu inteiro.

A paz, nem tanto.

Durante todo o percurso entre Japeri e Miguel Pereira, ele viajou ouvindo a bronca mais longa da história. E, quer saber?

Acho que aquela bronca valeu mais do que qualquer castigo.

Depois daquele dia, nunca mais ninguém esqueceu a principal regra da viagem: Se a velha dizia para não descer do trem… ninguém descia.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.