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Banca do Guima

Encrenca entre amigos

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Domingo, dia de esticar o sono até mais tarde. Que nada! Cris cutucou o marido, que não teve escolha.

— Gilmarildo, acorda! Num vai sair com as crianças? Já tá na hora.

Sem poder de fala, Gilmarildo tratou de se levantar antes que a bronca e o peteleco certeiro na orelha chegassem sem aviso. Foi ao banheiro jogar água gelada no rosto. Olhou o reflexo do outro lado do espelho e, quase mudo, disse: “Vamos, meu amigo, antes que as crianças fiquem impacientes.”

Gilmarildo foi até a sala, pegou as guias penduradas atrás da porta e chamou a garotada:

— Tina! Caetano! Leleco! Vamos sair com o papai.

Já na calçada, o homem, contagiado pelo calor suave e a euforia dos cães, começou a se sentir melhor. Até resolveu esticar a caminhada até a Banca do Guima, amigo de longa data. O percurso era longo, mas ele poderia, assim que chegasse ao destino, comprar água para os meninos e um picolé de uva para ele. Talvez dois. Que a dieta fosse empurrada com a barriga para a próxima semana. Dito e feito.

— E aí, Guima, como andam as coisas? Tem alguma história nova? Olha que o Edu vive me cobrando. Você sabe como é, meu camarada, vida de escritor não é fácil.

— Fala, Gilmarildo! Hoje trouxe a garotada toda, né?! Quanto às histórias, deixa estar que daqui a pouco aparece uma.

— Pois é! A Cris acordou de pá virada e já me expulsou do berço.

Gilmarildo pediu três garrafinhas de água mineral para os cães e um picolé para ele. Mais um picolé de uva e, não resistindo, pediu outro. Depois da prosa, a hora de retornar ao lar, doce lar havia chegado. Gilmarildo, então, perguntou quanto devia. No entanto, assim que ouviu o preço, percebeu o aumento de um real e cinquenta centavos.

— Guima, acho que você errou na conta.

— Não errei. É que a água agora custa três reais e cinquenta.

— O quê? E quem foi que te autorizou a aumentar o preço? Vou fazer uma reclamação ao seu patrão.

— Hum! Gilmarildo, a banca é minha, né!?

— Mas, Guima, a água na Banca do Robert custa três.

Guima achou graça da reclamação do amigo e, brincalhão que era, sacou seu aparelho celular, tirou uma fotografia do Gilmarildo, em seguida, a encaminhou ao Robert com o seguinte áudio: “Olha o que você me arrumou, Robert. Estou com esse elemento aqui no meu estabelecimento. E ele está reclamando do preço da água mineral. Então, faça-me o favor de aumentar o preço da sua água para que possamos manter a nossa amizade.”

Gilmarildo, que não gostava de perder uma piada, tratou de fingir insatisfação.

— Olha aqui, Guima, vou tacar um processo nas suas costas. Você vai acabar tendo que vender essa sua espelunca pra me indenizar. E olha que periga nem conseguir. Não duvido que vai ficar só de cueca.

Como o movimento na banca era praticamente nenhum àquela hora, eis que o Guima, sorrindo mais do que a boca cheia de dentes, não perdeu a oportunidade de continuar a brincadeira.

— Tu é um falastrão, meu querido Gilmarildo. Mais provável você virar meu empregado pra pagar as custas do processo.

Entre risos, gargalhadas e gozações, isso tudo chamou a atenção do Santana, afamado policial por tantas atrapalhadas na delegacia da área. O sujeito coçou a barriga enorme, cofiou o bigodão, passou as mãos na calva e se aproximou para dar um fim naquela algazarra.

— Ei, vocês dois aí! Posso saber o que está acontecendo aqui?

Nisso, o Guima tentou explicar que aquilo tudo não passava de uma brincadeira entre amigos.

— Não tá acontecendo nada, não, seu guarda.

Pra quê? Uma coisa que deixava o agente possesso era ser chamado de guarda. O gorducho não teve dúvida. Deu voz de prisão aos dois homens e, para completar a pantomima, levou até os cachorros para a delegacia.

Por sorte do Gilmarildo e do Guima, o delegado de plantão era o Rupereta, amigo de longa data dos dois. Os três costumavam se reunir com o Ricky Ricardo, outro policial, e jogar biriba e tomar algumas cachaças. Desse modo, sobrou para o Santana, que tomou aquela bronca.

Quando os amigos foram liberados da delegacia, eis que o Guima se virou para o Gilmarildo e mandou essa:

— Num te falei, Gilmarildo?

— Falou o quê, Guima?

— As histórias pro Edu escrever. Uma hora aparece. E essa apareceu rapidinho.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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