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Voto no lixo

Eleitor displicente deixa vivo Congresso inservível

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Por mais que diariamente eu tente me convencer do contrário, difícil dissociar o voto da maioria dos eleitores brasileiros de eventuais vantagens pecuniárias, funcionais, familiares e até imobiliárias. Triste constatação, mas como explicar a falta de memória do povo? Conforme recente pesquisa do Instituto Datafolha, essa mesma maioria não consegue citar o nome de nenhum parlamentar no qual votou na eleição passada. Como eu sei e sempre saberei em que votei, em quem votar e em quem não votar, acabo achando que, involuntariamente, eles jogaram meu voto na lata do lixo.

De acordo com a consulta popular, 85% lembram do voto para presidente, mas apenas 23% recordam a escolha para deputado federal. Para infelicidade de todos os cidadãos que levam a política a sério, quatro em cada dez dos pesquisados não conseguem citar nenhum senador em exercício. Lembrando que são apenas três por estado, ou seja, 81 no total, a desesperança e a prostração batem forte no peito dos que votam pensando na coletividade, consequentemente no bem da nação. Eis a razão do Congresso brincalhão e inservível que temos.

É aquela máxima de que a gente finge que vota e eles, os congressistas, fingem que legislam. O problema é que o custo de cada um dos 513 deputados e senadores é “rateado” pela totalidade dos brasileiros, inclusive pelos que têm consciência da importância do voto. Para os eleitores fingidos, quase abestados, é bom informá-los que o Parlamento nacional custa aproximadamente R$ 15 bilhões anuais aos cofres públicos, englobando o orçamento da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

É o segundo legislativo mais caro do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo dados da União Parlamentar, organização internacional que estuda os legislativos de diferentes países. Diante desses dados alarmantes e, principalmente, preocupantes, é fácil concluir que temos parlamentares demais e milhões de eleitores omissos, desavisados, desiludidos com a política, decepcionada com os políticos ou, na pior das hipóteses, levados pela melhor vantagem, o que independe de quem oferece.

São aqueles que não conseguem despregar os olhos do próprio umbigo. Os que votam displicentemente confirmam a tese de Bertolt Brecht, para quem “tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem é que continuemos a nos omitir da política”. Infelizmente, 75% dos brasileiros não conseguem citar o nome de nenhum senador com mandato. Por isso, eles fazem o que fazem porque sabem que poucos irão questioná-los. Reitero que o prejuízo da má condução do mandato e da corrupção decorrente é de todos.

O desconhecimento dos desmemoriados cai apenas quando o assunto é o voto para presidente da República. Nesse quesito, pelo menos 85% afirmam lembrar da escolha feita há quatro anos. Nada de anormal, considerando que, quanto maior a visibilidade do cargo, maior a lembrança do voto. Para governador, 54% afirmam lembrar da escolha feita em 2022, contra 38% que não recordam e 9% que não votaram. É o Brasil que temos, mas certamente não é o Brasil dos sonhos dos brasileiros que não precisam se fantasiar de patriotas para torcer pelos argentinos na Copa do Mundo.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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