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Hoje foi demais

Tia… Tinha Até Plano B!

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Eu evito muito saber da vida pessoal dos meus alunos por causa de um trauma. Passei por uma situação que me obrigou a participar de reuniões com pais, responsáveis e até com o Conselho Tutelar durante quase dois anos. Mas essa história foi chata demais para virar conto.

Só que a de hoje foi demais!

A sala estava quase vazia. Papo vai, papo vem, quando escuto:

— Lembra do nosso plano lá no 2º ano? E a conversa foi fluindo…

Perguntei sobre o tal plano.

Eles perguntaram se eu realmente não sabia. Nick perguntou se eu me lembrava do Natan. Então, em resumo, eles me apresentaram o plano:

— Nós pensamos assim: às duas horas da manhã, Thor e Nick sairiam de moto de casa e passariam para buscar o Natan, porque ele mora longe. Depois, nos encontraríamos na rua de baixo da escola. Cada um levaria um garrafão de gasolina e uma mochila…

Interrompi na hora:

— Pera aí! Onde vocês iam arranjar gasolina às duas da manhã?

— Calma, tia! — respondeu Nick. — O pai do Natan trabalha com motos. Ele ajuda o pai… Natan fez questão de completar:

— E eu sei pilotar moto, tá?!

— Tá… continua.

Eles pulariam o muro do vizinho e subiriam pelas escadas, porque, na lateral da escola, não havia grades.

Lá em cima, pegariam os rolos de papel higiênico dos banheiros da quadra, porque eram maiores. Depois, fariam uma trilha de papel do alto do terceiro andar até a entrada da escola e jogariam gasolina por todo o caminho.

Antes da entrada dos alunos, o plano era sentar no portão da escola e colocar fogo no papel encharcado de gasolina.

Mas… era tudo segredo. Apenas entre os três. Só que sempre existe um bocudo.

Alguém contou para a tia Sônia, que avisou a pessoa mais temida da escola: tia Telma. Nick contou:

— Aquela voz suave chamou pelo nome… Ih, tia… deu até arrepio…

— Vocês três, venham aqui!

Ninguém conseguiu respirar. Ninguém conseguiu responder.

Tia Telma chamou os responsáveis, e a confusão estava formada.

Além da suspensão, ainda ganhei um “carinho” do meu pai. Até hoje ele não pode ouvir uma reclamação sobre mim — contou Nick.

Thor completou:

— Eu fiquei de castigo por três meses. Olhei para eles e perguntei:

— Pera aí… isso tudo era só com vocês? E se desse errado? Nick respondeu, com a maior tranquilidade do mundo:

— Não, tia. Tinha um plano B. Era mais complicado, mas também ia dar certo!

Olhei para os três tentando imaginar a cena. A convicção com que contavam cada detalhe era impressionante. Na cabeça deles, tudo estava perfeitamente calculado. Não havia dúvidas, medo ou hesitação. Havia apenas a certeza de que o plano daria certo… ou, se não desse, ainda existia o plano B.

Sorri.

Não porque o plano fosse engraçado. Na verdade, ele era assustador.

Sorri porque, anos depois, aqueles meninos conseguiam olhar para aquela história com a maturidade de quem entendeu o tamanho da besteira que havia imaginado fazer.

E, naquele instante, pensei que talvez seja exatamente isso que a escola também faz.

Ela ensina Português, Matemática e Ciências, mas, sobretudo, interrompe planos que nunca deveriam sair da imaginação.

Olha… não sou só eu quem delira.

A imaginação de uma criança do 2º ano do Ensino Fundamental é realmente poderosa. Ainda bem que, às vezes, ela encontra adultos atentos pelo caminho.

E, sim… essa história é verdadeira.

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