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O Touro e o câncer

Marcelo Seabra cruza a última fibra para ligar rede de internet do Céu

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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Conheci e conheço pessoas que vieram ao mundo para ocupar espaço, e outras, para preencher vazios. Marcelo Seabra, nosso eterno Cecelo, fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Ocupava espaço porque Deus resolveu moldá-lo quase em tamanho natural de um touro, porque beirava os dois metros de altura e carregava seus 120 quilos como quem transporta um abraço gigante. E preenchia vazios porque onde ele chegava a conversa ficava mais inteligente, o ambiente mais leve e a família mais inteira.

Nesta sexta-feira, 24, Brasília perdeu um homem de apenas 52 anos. O Céu, porém, ganhou um especialista em conectar mundos. Durante quatro anos, um câncer foi, lenta e silenciosamente, consumindo aquele corpo de gigante. A doença venceu a carne, mas jamais conseguiu derrotar o caráter. Há batalhas em que a medicina mede o tempo de vida; Deus, porém, mede a grandeza da existência. E a de Cecelo foi imensa.

Flamenguista de corpo, alma e coração rubro-negro, recebeu do médico o diagnóstico que ninguém deseja ouvir. Poderia ter perguntado quanto tempo lhe restava. Preferiu saber quando jogaria o Flamengo. Comprou passagens para ver, do outro lado do oceano, seu clube conquistar o mundo. Marcelo Era assim. Enquanto muitos enxergavam a doença, ele continuava olhando para o horizonte. Talvez porque sempre tenha vivido alguns quilômetros à frente do restante de nós.

Quando a internet ainda caminhava de joelhos e fazia aquele barulho metálico dos antigos modems, Cecelo já falava de um futuro que parecia ficção científica. Eu ainda acreditava na força eterna do papel impresso e ele sorria com a paciência dos visionários.

— Tio, o jornal vai mudar. O futuro está nos portais.

Naquele instante, confesso, achei que era entusiasmo de um rapaz apaixonado por computadores. Hoje reconheço que eu conversava com alguém que já morava no amanhã. Pouco depois nascia Notibras, há vinte e sete anos, exatamente sobre os alicerces daquela visão que ele enxergava antes de quase todo mundo.

Visionário por profissão, generoso por vocação, Cecelo foi também um dos pioneiros da tecnologia em Brasília. Levou a velocidade da informação a milhares de pessoas por meio da Reitec Fibra, uma empresa genuinamente brasiliense. Enquanto muitos vendiam internet, ele entregava proximidade. Conectava famílias, empresas, sonhos e oportunidades. Seu trabalho nunca foi apenas instalar cabos, mas de diminuir distâncias.

Ironia do destino, Marcelo acaba de atravessar a última fibra óptica. Imagino São Pedro olhando para um emaranhado de nuvens desconectadas, servidores celestiais precisando de manutenção e anjos reclamando da lentidão do Wi-Fi divino. Bastará a chegada desse gigante de sorriso tranquilo para alguém anunciar:

— Pode deixar. O Cecelo resolve.

Aqui embaixo, porém, a conexão caiu. Ficam o silêncio da cadeira vazia, a saudade que insiste em ocupar todos os cômodos da memória e a estranha sensação de que os gigantes também morrem. Descobrimos, tarde demais, que nem sempre os touros vencem todas as arenas.

Mas há uma frase que resume melhor do que qualquer oração este momento. “Lora”, como ele chamava com infinito carinho a tia Eudas, traduziu em poucas palavras aquilo que talvez nenhum de nós conseguisse escrever:

— A gente fica triste aqui embaixo, mas a festa será grande no plano espiritual com a chegada dele.

É impossível não acreditar nisso. Consigo imaginar o reencontro com tantos familiares e amigos que partiram antes, os abraços demorados, as gargalhadas, alguém preparando um café enquanto outro pergunta como anda o Flamengo. E, antes mesmo que termine a conversa, Cecelo já estará explicando aos anjos como melhorar a rede celestial.

Neste sábado, seu corpo seguirá para o Campo da Esperança. Sempre achei curioso esse nome, que agora ganha outro significado. Ou talvez não. Porque me lembro perfeitamente de uma das frases preferidas de Cecelo, dita com aquela ironia fina que arrancava risos de todos:

— Esperança de quê? Basta de dizer que a esperança voltou.

Pois bem, meu querido sobrinho. Ela não voltou. Ela apenas mudou de endereço e mora definitivamente onde nenhuma doença alcança, onde a internet não cai, onde o tempo não envelhece ninguém e onde Deus, certamente flamenguista em dias de bom humor, já reservou uma arquibancada para que você continue assistindo às grandes finais da eternidade.

Vai em paz, Cecelo. Daqui continuaremos sentindo sua falta. Daí de cima, cuide da conexão entre o Céu e os corações que você deixou na Terra. Porque esse vínculo jamais poderá ser interrompido.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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