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Honorato

O infarto invisível

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Honorato, em outros tempos, havia sido admirado e até invejado por sua velocidade incomum no trabalho. Na repartição pública, onde fez carreira, era tratado como indispensável. Resolvia tudo ou quase; deixava as trocas de lâmpadas para quem de direito.

Aposentou-se aos 68, mas poderia tê-lo feito uma década antes. Precisavam dele, Honorato dizia. Não seria correto abandonar o barco e deixar os companheiros naufragarem em mar revolto.

Os primeiros dias de aposentadoria soaram como afronta à dignidade humana. Qual seria o propósito de continuar usurpando o ar dos que continuavam na labuta? Larissa, a esposa, ainda tentou demover Honorato desse sentimento de culpa.

— Meu bem, você já trabalhou demais a sua vida toda.

— O que é um homem sem trabalho? Nada, Larissa. Nada!

Em vez de aproveitar os momentos ao lado da mulher, dos filhos, dos netos, dos amigos, Honorato não permitiu que o sossego se aproximasse. E nada de viagens, algo que Larissa suplicava. O homem tinha o argumento na ponta da língua:

— Não nasci turista, Larissa.

Depois de cinco anos de reclamações do sujeito, ele testemunhou a morte da mulher. Infarto, atestou o médico; tristeza, Honorato não teve dúvida.

Durante o velório, em pé ao lado do caixão, Honorato observou o rosto de Larissa. Como é bela! Teria ela sido feliz? Tentou buscar na memória dias em que os dois deram as mãos, seja no banco da praça, seja no cinema, seja até mesmo quando caminhavam na calçada. Nada! O sujeito, sempre apressado, era só reclamações.

O homem, naquele exato instante, foi acometido de uma forte dor no peito. Tão intensa, imaginou que era a hora do reencontro com sua amada. Dor física, é verdade; porém, de fundo emocional.

Honorato não relatou o ocorrido a ninguém. Se fosse morrer, que fosse em casa, livre de olhares penosos. Sentiria falta do mundo? Que mundo?

A primeira noite sem a esposa pareceu infinita. Honorato, ardendo em febre, se deitou na cama, estendeu o braço sobre o lado vazio e se sentiu entregue ao próprio destino. Adormeceu com a certeza de que não abriria nunca mais os olhos.

O homem sentiu os primeiros raios solares invadindo as frestas da cortina e repousando sobre a sua face. Abriu os olhos. Suado, lívido, solitário e surpreso por ainda estar vivo. Fitou o teto por um instante, tentando visualizar o rosto de Larissa.

Entediado, foi até a cozinha, preparou um café, encheu uma xícara e foi até a varanda. Sentou-se na cadeira de balanço. Um gole ligeiro, outro mais longo. Um joão-de-barro no jardim. Honorato conhecia a espécie, mas jamais havia notado seu canto. Apaixonou-se.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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