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Sinfonias

Amor de penas

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

SABIANAS Nº 1

Acordo os dias com o lusco-fusco entre a madrugada e o Sol.

Bom dia pro casal de aracuãs, pras plantinhas na varanda do chalé e desço até a cozinha coletiva pro café.

E ele já está me esperando.

Sabiá-laranjeira, mestrado em Bach, Tom Jobim, Villa Lobos e Hermeto Pascoal.

Realiza trinas inacreditáveis, solfeja em frases atonais e ousa falsetes com voz dobrada.

É um Milton Nascimento genial.

Canto de volta pra ele…

“Ponta de areia, ponto final, da Bahia a Minas, estrada natural”

Súbito, invento de perguntar sobre os motivos de tão belo canto.

O sabiá dá uns pulinhos, faz carinho em minhas pernas e resume:

— Tristeza, Gil…Tristeza. A última vez que a vi foi aqui perto da cozinha. Depois… pra nunca mais.

Fico sem jeito, pois o canto tão alegre e cheio de vida para mim, na verdade, é o lamento desesperado dele chamando por ela.

Penso nos caminhos desencontrados do amor.

Quisera ser sabiá-laranjeira e poder cantar para aliviar meu peito e a minha dor.

Respiro e decido sair dançando, afinal, cantar não canto bem, mas danço feito bailarina.

O Sol ganha a Guarda e eu ganho mais um dia musical de paz.

SABIANAS Nº 2

Fim da tarde. Chego de outra trilha até o Costão e vou à cozinha coletiva.

E lá está ele, o sabiá-laranjeira me esperando cantando árias e rapsódias.

— Gil, pela manhã eu lhe disse que cantava por tristeza. Não é bem assim. Canto pela falta que a “sabiazinha” me faz, mas canto também pelo conforto de ter vivido e cantado em duas vozes com ela pela vida toda.

— Opa, meu amigo … maravilha! Fico mais aliviado, pois sei que você é o belo canto em pessoa. Obrigado, gratíssimo!

— Boa gente é você, Gil, que fala com as plantas e com os bichinhos e me chama de Sabiá-Nascimento… Nossa!

— Nada, não…TUDO fala e canta e encanta a vida que temos para levar. Meu pai, sim, seu Motinha, falava com as formigas, as abelhas, com os beija-flores e os vaga-lumes. E eles respondiam e eu e meu mano fomos aprendendo com ele. Eu é que sou grato, meu amigo! De coração e alma; pura verdade.

A criatura de penas marrom-douradas se despede e antes de se retirar para o justo descanso da noite solta uma daquelas canções inesquecíveis que aprendeu com Tom Jobim… SABIÁ.

Esquento o meu “rango” noturno e agradeço mais uma vez pela comida, pela música mágica de meu amiguinho virtuose e pela amizade que molda pontes entre o aparente inumano e o mundo dos homens débeis feito eu. Sábio sabiá, o ser cantante mais Milton Nascimento/Tom Jobim que eu tenho a dádiva de conhecer.

Ele se retirou para o ninho na goiabeira na entrada da pousada. A noite chega e busco o descanso prazeroso com a sinfonia “Sabiana” de meu amiguinho de penas e alma de anjo cantor.
………………………..

*Sabiá (Tom Jobim/Chico Buarque) https://www.youtube.com/watch?v=hsoxLXy5x2I

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que já sabe que quando essa jornada findar terá um amigo sabiá-laranjeira cantando pelas manhãs e nos finais de tarde esteja onde estiver. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo de pescadores, artistas e turistas no litoral de SC.

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