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Leitura dominical

O silêncio do banco de trás do carro de App

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Existe uma fauna muito particular dentro dos carros de aplicativo. Quem usa esse serviço todos os dias aprende a reconhecer as espécies logo nos primeiros quarteirões.

Tem o motorista que transforma quinze minutos de corrida num programa de rádio e, antes do segundo semáforo, já explicou por que o Brasil não vai para frente. Tem o apaixonado pelo sertanejo sofrido, que parece acreditar que todo passageiro acabou de sair de um divórcio. Tem o do gospel em volume missionário, decidido a evangelizar o banco de trás. Tem o do pagode de domingo, o do forró eletrônico, o do axé nostálgico e o que aproveita cada sinal vermelho para colocar em dia os áudios do WhatsApp, sem imaginar que você também acaba ouvindo a discussão da família inteira.

Tem o motorista que pergunta se o ar-condicionado está bom, se a música incomoda, se você prefere outro caminho. E tem o que dirige em silêncio, mas daquele silêncio confortável, que não constrange ninguém.

Foi justamente por isso que estranhei o homem que encontrei outro dia.

Entrei, dei boa noite e recebi de volta um silêncio tão completo que cheguei a olhar discretamente pelo retrovisor para descobrir se ele simplesmente não tinha ouvido. Nada. Nem um movimento de cabeça. Apenas o brilho azulado do aplicativo iluminando o rosto e os olhos fixos na avenida.

Seguimos viagem.

Em algum momento pensei em comentar o trânsito, perguntar se o movimento estava fraco ou fazer qualquer uma dessas banalidades que os brasileiros inventaram para dizer “está tudo bem”. Desisti. Existe um momento em que a conversa perde o tempo certo. Depois disso, qualquer palavra parece entrar na sala quando a reunião já acabou.

A viagem ficou tão silenciosa que comecei a reparar em coisas que normalmente não existem. O relógio do painel mudando de minuto em minuto. O limpador de para-brisa de um ônibus que funcionava sem uma gota de chuva. A buzina impaciente de alguém duas quadras adiante. Quando o silêncio dura demais, qualquer detalhe faz barulho.

Chegamos.

O porta-malas destravou por um botão. Peguei a mala sozinho. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Nem mesmo aquele aceno automático que encerra a corrida antes da próxima chamada aparecer na tela.

Confesso que saí incomodado.

Não por falta de conversa. Conversar é opcional. Mas um “boa noite” e um “até logo” ainda me parecem fazer parte desse pequeno acordo de convivência que permite dois desconhecidos dividirem o mesmo carro sem parecer que estão atravessando um corredor de hospital.

Ainda no elevador fiz aquilo que os aplicativos transformaram em reflexo. Dei uma estrela.

Só que o remorso costuma subir mais rápido que o elevador.

Quando a porta do apartamento abriu, comecei a fazer aquilo que todo jornalista conhece bem: preencher os vazios da história.

Talvez aquele homem estivesse dirigindo desde antes do amanhecer. Talvez tivesse acabado de sair de um hospital. Talvez tivesse brigado em casa. Talvez tivesse recebido uma notícia ruim minutos antes de me buscar. Talvez estivesse apenas esgotado de conversar com dezenas de desconhecidos todos os dias. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez simplesmente fosse um sujeito calado.

Percebi, então, que eu não sabia absolutamente nada sobre ele.

Sabia apenas que não respondeu ao meu boa noite.

E isso bastou para que eu resumisse uma pessoa inteira em uma única estrela.

É curioso como a imaginação funciona. Primeiro ela condena. Depois absolve. Sempre usando exatamente a mesma falta de informação.

Comecei até a desconfiar de mim mesmo. Será que fui eu quem entrou no carro esperando uma simpatia que aquele homem nunca prometeu oferecer? Será que o incômodo dizia mais sobre minhas expectativas do que sobre a educação dele?

Nunca vou saber.

Talvez ele tenha encerrado a corrida e seguido para o próximo passageiro sem lembrar que eu existi.

Eu, ao contrário, carreguei aquele motorista comigo até em casa.

Vivemos numa época em que basta um quarto de hora para decidir a nota de alguém. Avaliamos motoristas, entregadores, restaurantes, hotéis, médicos e até pessoas que nunca mais veremos. E somos avaliados com a mesma velocidade. Cinco estrelas. Quatro. Uma. Como se uma vida inteira pudesse caber dentro de quinze minutos.

Quando fechei a porta do carro, ouvi o clique da trava antes mesmo de dar dois passos. Não sei por que aquilo ficou na minha cabeça. Talvez porque, naquele instante, tive a impressão de que ele não estava apenas fechando o carro.

Estava fechando o mundo.

E fiquei pensando se, naquela mesma noite, ao abrir o aplicativo para avaliar o passageiro, ele também não tenha parado por alguns segundos antes de escolher quantas estrelas dar ao sujeito estranho que insistiu em desejar boa noite.

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