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Vozes da Literatura

O processo visceral e intuitivo do escritor José Antonio Torres

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

A literatura brasileira contemporânea frequentemente encontra seu oxigênio longe dos circuitos comerciais tradicionais, florescendo na sensibilidade de autores que acolhem a escrita como uma verdadeira missão de afeto. É nesse cenário de dedicação espontânea que se destaca o poeta e cronista José Antonio Torres. Com uma trajetória iniciada de forma despretensiosa em 2022 — impulsionada pelo desafio de assinar o prefácio da obra de uma amiga —, o autor rapidamente consolidou seu espaço no meio literário. Em um curto e prolífico intervalo que se estende até este ano de 2026, Torres imprimiu sua marca em três livros autorais, incluindo o celebrado Um Mergulho na Alma, além de somar dezenas de participações em antologias nacionais e internacionais, revelando uma voz que transforma o incômodo do cotidiano em pura potência poética.

Nesta edição da coluna Vozes da Literatura, o escritor compartilha os bastidores de seu processo criativo intuitivo, avesso a rotinas rígidas e movido essencialmente por estímulos viscerais e pelo desejo de tocar o íntimo de quem o lê. Ao refletir sobre a importância de trincheiras culturais como o Jornal Cultural ROL, Torres analisa o papel transformador da circulação digital para os autores independentes, discute as barreiras de visibilidade no mercado atual e detalha como encara a palavra escrita: não como um exercício de métricas estressantes, mas como um bálsamo capaz de oferecer ternura e positividade a corações atribulados. Acompanhe, a seguir, a entrevista na íntegra.

Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, você reconhece como decisivo em sua  trajetória? O que o levou a tornar seus textos  públicos?

A minha caminhada no universo da literatura, como poeta e escritor, é bem recente se comparada com a de outros escritores que passei a  conhecer ao adentrar esse universo. Tudo começou em 2022, com o pedido de uma amiga, a poeta e escritora – Nancy  Cobo – para escrever o prefácio de um livro seu. Passado o susto e a insegurança, realizei essa façanha. Esse foi o gesto decisivo. A partir daí, e com a boa aceitação de poemas e contos que fui  escrevendo, foram começando as participações em  Antologias – atualmente somam 46 já lançadas e 8 que serão lançadas ainda neste ano  de 2026. Além disso, no ano de 2022 lancei o meu primeiro livro solo: Um Mergulho na Alma: Reflexões e Divagações. Em 2023 lancei Casulo & Borboleta. Em 2025 foi o lançamento de Sementes de Sentimentos.

“Me sinto bem confortável quando escrevo um conto ou uma crônica”

Entre conto, crônica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual gênero você  encontra maior liberdade e precisão para dizer o que deseja? Por quê?

Me sinto bem confortável quando escrevo um conto ou uma crônica. Mas é através  da poesia que deixo o sentimento exalar da alma pelos poros da sensibilidade.

Quais são as fontes mais recorrentes de sua escrita: experiências pessoais, observação  do cotidiano, memória, leitura de outros autores, pesquisa, diálogo com outras artes  ou algo diferente?

Certamente que escrevo muito baseado em experiências pessoais que garimpo na memória. A observação do cotidiano e, principalmente, das pessoas, também constituem um rico material no que diz respeito aos absurdos que acontecem e a hipocrisia da raça, dita, humana. Mas creio que a maior parte dos meus escritos provêm do desconforto que sinto em viver imerso em uma humanidade que, em lugar de evoluir, se mostra destituída de dignidade e chafurdando na lama da própria existência.

“Invariavelmente escrevo quando algo grita dentro de mim”

Que condições de trabalho sustentam a sua produção literária? Você depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de estímulos mais circunstanciais?

Invariavelmente escrevo quando algo grita dentro de mim. Algo que me incomoda ou deslumbra. Que me sacode pela injustiça ou pela beleza de um ato ou sentimento. Não me programo para escrever, espero ser tocado.

Quando trabalha com ficção narrativa, como você descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde? Em que momento percebe que ela se tornou suficientemente complexa para sustentar a história?

Apenas uma vez trabalhei em um texto de ficção. Foi um convite que recebi para participar de uma Antologia de Mistério e que tinha uma conotação sobrenatural. Assim sendo, não tenho expertise para fazer essa avaliação.

Como funciona a revisão no seu processo? O que costuma mudar de modo decisivo entre a primeira versão de um texto e aquela que você considera publicável?

Algumas vezes escrevemos baseados em um sentimento que deixamos fluir no momento da escrita. Após o término e, ao reler, algo parece estar deslocado e criando um hiato no texto, no poema, enfim. Muitas vezes, apenas uma palavra ou uma frase faz com que o sentido e o sentimento desejado estejam sendo minimizados. Troca-se a palavra ou a frase e o sentido reluz de forma clara e resplandecente. Está pronto!

“O Jornal Cultural ROL é um veículo importantíssimo na divulgação do trabalho do  Escritor/Poeta”

O que a publicação no Jornal Cultural ROL alterou – ou confirmou – em sua relação  com a escrita, com os leitores e com outros autores de língua portuguesa?

O Jornal Cultural ROL é um veículo importantíssimo na divulgação do trabalho do  Escritor/Poeta e que propicia aos leitores uma gama vastíssima e variável de conteúdo altamente qualificado. O editor-chefe do Jornal Cultural ROL, Sergio Diniz da Costa, é meticuloso em entregar ao leitor o melhor conteúdo literário possível. Ao passar a publicar os meus textos no Jornal Cultural ROL, pude sentir, através dos comentários dos leitores aos meus textos, a grande responsabilidade que temos com as palavras. Por exemplo: Ao receber de uma leitora o comentário de que ao ler o que escrevi, ela sentiu como se eu a conhecesse profundamente e estivesse conversando diretamente com ela, ficou claro que temos o dom de tocar corações e, muitas vezes, levar bálsamo a um coração atribulado. Isso é uma missão de amor.

Há algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado sua percepção sobre um texto, sobre o público ou sobre a função daquilo que escreve?

Mudar, não. Pelo contrário. Todos os comentários que recebo vêm corroborar que, o que acredito ser uma missão, é tocar o coração das pessoas com poesia, carinho e ternura, eu – sem arrogância – tenho, aos poucos, conseguido cumprir. Isso me deixa, extremamente, feliz e realizado. Que eu possa prosseguir nessa missão.

“Poucos são os que podem se dar ao luxo de viver de literatura”

Na prática, o que os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possível a um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remuneração continuam presentes?

Os jornais culturais independentes e a circulação digital proporcionam ao escritor que aquele texto, que fatalmente ficaria esquecido em uma gaveta ou pasta, possa ser compartilhado com outras pessoas que, muitas vezes, estão ávidas por leitura, mas não podem comprar um livro. Propiciam também aos escritores, serem conhecidos e conhecerem outros escritores, editoras e academias. Colocar um livro em uma editora para ser lançado, tem um alto custo que, raramente, proporciona o retorno desejado. Muitas vezes nem cobre os custos para o lançamento.

Poucos são os que podem se dar ao luxo de viver de literatura. Invariavelmente possuem uma profissão que lhes provém os recursos necessários. A escrita é um prazer pessoal. A visibilidade é proporcional ao que produz.

Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no Café Literário/Notibras: que diferenças você percebe entre esses públicos e entre as formas de recepção dos textos em cada veículo?

Como ainda não publiquei através do Café Literário/Notibras, apenas no Jornal Cultural ROL, não tenho como avaliar.

Que sentido há em manter ficção, poesia e crítica cultural dentro de um portal jornalístico marcado pelo fluxo das notícias? Essa convivência altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?

Eu penso que não há conflito. A convivência pode ser harmônica pois cada uma atua em um nicho de interesses.

Qual é, hoje, o obstáculo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estratégia tem funcionado – e qual você considera superestimada?

Acredito que a invisibilidade, devido ao grande número informações digitais, seja o maior obstáculo. Uma boa forma para driblar isso, é a divulgação do seu trabalho por meio de plataformas culturais que aumentará a sua visibilidade assim como grupos acadêmicos com trocas de experiências e oportunidades de divulgação e participação em trabalhos literários. A estratégia focada em livros lidos e números de páginas é superestimada e extremamente estressante.

Ao imaginar alguém lendo a sua obra, que tipo de experiência você espera provocar? Há efeitos que você deliberadamente evita buscar no leitor?

Eu escrevo procurando colocar em cada frase, em cada texto, os melhores sentimentos. Quero tocar o coração do leitor de alguma forma. Se ele está em um momento atribulado, que seja serenado; se está passando por momentos de tristeza que possa sentir ternura e vislumbrar a felicidade. Como procuro escrever sobre positividade, creio que já é o antídoto para qualquer sentimento negativo que o leitor poderia desencadear. A leitura do que escrevo é para o bem.

Há um projeto em curso – livro, coletânea, pesquisa, novo gênero, revista, oficina ou outra iniciativa – que ajude a compreender o momento atual de sua escrita?

Sim. Enviei, neste mês de julho, material para participação em duas coletâneas. São elas:

Coletânea Internacional de Poesias/AILB – 100 Poesias… Uma Travessia

Scriptura Perpetua  (União Literária do Brasil – Ulb)

Que prática, escolha ou disciplina você recomendaria a quem começa a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita você considera insuficiente ou enganoso?

Procure sempre estar atento a sua sensibilidade. Ela vai ditar a sua melhor escolha. Atente para a ortografia e a gramática. Leia sempre. Quem lê bem, escreve bem. Não se deixe levar por ofertas mirabolantes de escrever um livro com Inteligência Artificial (IA). O que importa em um bom texto, um bom livro, é a sua sensibilidade, o teu sentimento.

Que pergunta sobre sua escrita ou sobre a literatura contemporânea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda não apareceu? 

Acredito que as perguntas desta entrevista tiveram uma excelente abrangência englobando pontos de fundamental importância. Deixo aqui o meu agradecimento e abraço de luz.

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José Antonio Torres, natural do Rio de Janeiro (RJ), é poeta, escritor e militar do Exército – reformado.

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