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Tempo

Areia de ampulheta

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Tudo é precioso para aquele que foi, por algum tempo, privado de tudo”.
(Friedrich Nietzsche, filósofo)

1.
A precisão dos números marca o tempo das máquinas e dos homens.

O tempo do amor se marca com o corpo e com a alma.

Um calendário é coisa convencionada: minutos, dias, meses, anos transmutados em números. Esses números medem o tempo material.

Mas os pedaços de tempo são bolsos vazios.

Nada há dentro deles.

Vazio.

O relógio é o tempo do dever: corpo e mente engaiolados.

O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo imaterial quando o enchemos com vida.

Aí o tempo não pode mais ser representado apenas por números.

O tempo aparece como um fruto que vai crescendo até ser devorado pelo próprio tempo.

É belo, colorido, perfumado. É mágico.

E, no mesmo instante em que vai sendo consumido, o tempo também nos devora.

Consume e fulmina no ciclone do inevitável.

E fica apenas o descanso.

O tempo dos homens é marcado também por ciclos.

Há inícios, meios e fins.

2.
Viver acordos, arranjos com o tempo.

Talvez seja uma boa fórmula para não enlouquecer.

Assim, quem sabe, possamos transcender.

Não. Ilusão. O tempo é o poder.

(*Tempus fugit; o tempo foge)

3.
O sábio é um degustador da vida enganador do tempo.

E viver, um delicado banquete para ser saboreado.

(*Carpe diem: colha o dia como um fruto que amanhã estará podre)

Desconfio que para nós/adultos, o tempo é um velho, cada vez mais velho.

E de quem a vida foge como escafedendo-se do cão.

Os gregos antigos, ao contrário, diziam que o tempo é criança.

E tem início permanente, movimento circular e o fim sempre retornando ao começo.

Ficam apenas os buracos do tempo: “buracos de minhoca”.

Os sulcos de lembranças, algumas tristes e outras alegres.

Das alegres, levo comigo as crianças, a infância, os coretos das praças públicas e as memórias.

Suco de vivências.

Néctar de imaginações.

Pegadas na areia.

Mergulho cego na ampulheta.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, pesquisador distraído que brinca nas praças iludindo o tempo, mesmo sabendo que é tempo perdido. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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