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Vozes cruzadas

Em “dia-longo”, Luciana Moraes entrelaça sua poesia à voz de Kay Sage

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Divulgação

Em dia-longo, lançado pela Editora Minimalismos, Luciana Moraes propõe mais do que uma aproximação da poesia de Kay Sage ao público brasileiro. Ao reunir traduções da artista surrealista norte-americana e poemas de sua própria autoria, a escritora carioca constrói um espaço de convivência entre vozes, imagens e temporalidades, no qual traduzir também significa escutar, interpretar e criar.

Nesta entrevista a Daniel Marchi, editor do Café Literário, Luciana fala sobre o processo de seleção dos poemas, os limites entre fidelidade e recriação, a influência da pintura de Kay Sage e a ideia de um tempo que se expande para além do relógio. A autora também explica como sua experiência de poeta atravessa o trabalho de tradução e transforma dia-longo em um livro marcado pela metamorfose, pelo estranhamento e pela permanência.

Daniel Marchi:  Seu trabalho com a poesia de Kay Sage começou antes da publicação de dia-longo. Em que momento essas traduções deixaram de ser experiências isoladas e passaram a constituir um projeto de livro?

Luciana Moraes: Meu livro nasceu de um encontro sutil com a poesia de Kay Sage, ainda durante o momento da pandemia. À medida que eu traduzia seus poemas, percebia que não buscava apenas uma equivalência entre idiomas, mas uma escuta. A tradução foi se tornando, ao longo dos anos, uma forma de convivência com a voz da autora e, pouco a pouco, um espaço de criação compartilhada. Foi então que compreendi que não se tratava mais de traduções isoladas, mas de um projeto de livro, impulsionado pelo diálogo entre sua obra e minha própria escrita.

 

D.M.:  Quais critérios orientaram a seleção dos poemas de Kay Sage reunidos na obra: afinidade temática, importância dentro da produção da autora, dificuldade tradutória ou possibilidade de diálogo com seus próprios poemas?

L.M.: Mais do que representar toda a produção de Kay Sage, procurei construir um percurso de leitura. Escolhi poemas que evidenciassem recorrências de sua escrita, como a tensão entre elementos como: espaço vão, mistério, silêncio, memória e deslocamento, e que, reunidos, revelassem diferentes nuances de sua voz poética. Também considerei o potencial tradutório de cada poema: alguns apresentavam desafios formais, rítmicos e imagéticos que permitiam explorar, em português, aspectos essenciais de sua linguagem. O diálogo com minha própria poesia e a de Sage não foi um critério de escolha prévio, mas uma afinidade crítica que minha voz latino-americana reconheceu ter ao longo do processo, inusitadamente querendo contribuir para haver esta unidade do livro.

 

D.M.:  Dia-longo reúne sua poesia autoral e traduções de Kay Sage. Como o livro organiza essa convivência entre a voz da tradutora, a voz da poeta brasileira e a voz da autora traduzida? Há intenção de que ambas se reúnam, se confundam ou se sobreponham?

L.M.: O livro busca preservar a singularidade de cada voz, mas também revelar os pontos de contato entre elas. Meus poemas e as traduções de Kay Sage permanecem identificados na própria organização da obra, permitindo que o leitor perceba as diferenças entre a voz da poeta brasileira e a voz da autora traduzida. No entanto, é inegável, enquanto autora, o meu desejo de ver poeticamente essa sobreposição e diversidade de vozes, criando um espaço de diálogo e de aproximação em que elas possam coexistir.

Ao mesmo tempo, a presença da tradutora atravessa esse encontro, porque toda tradução carrega uma leitura, uma escuta e uma experiência de criação. Como já defendia Haroldo de Campos, a tradução é uma prática “ao mesmo tempo desfiguradora e transfiguradora”: ela transforma o texto ao levá-lo para outra língua, mas também revela novas possibilidades de existência para ele.

Nesse sentido, dia-longo também propõe uma experiência diferenciada com o tempo. Há dias que parecem durar além do relógio, porque carregam memórias, esperas, encontros ou transformações essenciais. O livro se move dentro desse tempo expandido, convidando o leitor a atravessar a poesia sem a obrigação de apreender tudo imediatamente, permitindo que as imagens encontrem seu próprio ritmo e seu próprio tempo dentro de cada leitor.

 

D.M.:  Na amostra divulgada, a versão em português contém versos que não aparecem no texto inglês reproduzido. Trata-se de um procedimento de recriação poética, ou qual foi sua perspectiva?

L.M.: Sim, justamente. Eu optei por uma expansão poética, entendendo a tradução como um gesto de criação. Não se tratava de acrescentar arbitrariamente ao original, mas de tornar visíveis, minhas perspectivas em português, direcionando ritmos, imagens e tensões que a simples equivalência linguística não evidenciaria.

Nesse sentido, a tradução dialoga com a ideia, presente em Roland Barthes, de que um texto permanece aberto a novas leituras e novas formas de significação. Também encontrei afinidades entre a poesia de Kay Sage, Blanca Varela e Adalgisa Nery. Nas três, percebo uma linguagem marcada pela condensação imagética, pela tensão entre o concreto e o onírico e por uma persistente sensação de estranhamento. Minha intenção foi que essa expansão permanecesse fiel, não às palavras isoladas, mas à energia poética do texto.

 

D.M.:  Em “Eight-Day Clock”, escolhas como “Morning yawning” por “Manhã se escancarando” e “night tight” por “breu bêbado” preservam menos a literalidade do que o ritmo, a imagem e a atmosfera. Como você determina os limites entre as suas palavras, as palavras do original e as opções de tradução do poema?

L.M.: Procuro ser fiel ao funcionamento do poema, mais do que à sua literalidade. Quando uma imagem ou um ritmo não sobrevivem à tradução direta, busco soluções que preservem sua força poética, sem perder de vista o universo da autora. Prefiro pensar em uma tradução criativa.

Kay Sage (1898-1963)

Por isso, busquei preservar o ritmo, as imagens e a atmosfera dos poemas, mas sem apagar minha própria experiência como poeta. Traduzir poesia é aceitar que toda leitura transforma, de algum modo, aquilo que está escrito. Como dizia Henri Meschonnic, “o ritmo é a organização do movimento da palavra”. E sem dúvida, esta organização envolve a subjetividade.

D.M.:  Kay Sage é conhecida sobretudo por suas pinturas surrealistas, marcadas por arquiteturas desertas, isolamento e paisagens interiores. De que maneira sua obra visual interferiu na leitura e na tradução dos poemas?

L.M.: As pinturas de Kay Sage foram uma espécie de horizonte de leitura para minha aproximação com seus poemas. Em obras como Tomorrow Is Never (1955), The Upper Side of the sky, 1944 e The margin of silence 1942, encontro arquiteturas silenciosas, espaços suspensos e paisagens que parecem existir entre o sonho e a memória. Essas imagens me ajudaram a perceber que sua poesia também trabalha com ausências, deslocamentos e atmosferas de estranhamento. Como afirmavam Gilles Deleuze e Félix Guattari, “a sensação que se conserva é o critério da arte”; nesse sentido, desenvolvi uma constante leitura performática com os poemas traduzidos, buscando evidenciar as experiências que eles produziam e os espaços interiores que construíam.

 

D.M.: Gostaria de dizer algo mais para finalizar?

O cerne de tudo é a própria metamorfose. A pulsão de vida está no ritmo das palavras, em cada pulsação. Pois dizia Henri Bergson, que “a mudança (…) sem véu interposto, logo lhes aparecerá como o que pode haver de mais substancial e duradouro no mundo”. Talvez dia-longo nasça desse lugar: da percepção de um tempo que não se mede apenas pelo relógio, mas pelas experiências que nos transformam. A poesia nos convida a habitar esse tempo outro, em que algo está sempre se modificando e, ao mesmo tempo, encontrando uma forma de permanecer.

 

Uma amostra de dia-longo

 

Relógio de oito horas

 

Manhã se escancarando

Horas que latem

11 cinzento

irrompe a tarde

meio-dia tão rápido

grandiosamente

1 desfeito

 

Aponta o lápis

5 vivo

sorrindo

7 paraíso

é divertido

9 divino

seria preciso?

10, 11, 12 e eu,

corria sem cessar

mais, mais, mais

intento

gracejo

soneca

breu bêbado

 

Mal sabia, mas já

Manhã se escancarando . . .

 

 

EIGHT-DAY CLOCK

 

Morning yawning

11 leaden

noon too soon

1 undone

 

5 alive

7 heaven

9 divine

10, 11, 12 and i,

more, more, more

fun

night tight

 

Morning yawning . . .

O livro dia-longo pode ser adquirido diretamente no site da Editora Minimalismos:
https://www.editoraminimalismos.com/product-page/dia-longo-de-luciana-moraes

 

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e  Território do Sonho, (contos, 2026). No Instagram, @prof.danielmarchi.

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