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Luiz e Márcia

Duplamente enganado

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Nunca pensei em ter cachorro. Na verdade, quis ter um na infância, mas minha mãe insistia em dizer que daria trabalho e, no final, sobraria para ela tomar conta do animal.

— Todo mundo quer tudo, Luiz, e tudo sempre acaba nas minhas costas. Estou cansada. Se quiser bicho, que fique adulto primeiro pra você ver o que é bom pra tosse.

Ganhei uma bicicleta, o que me distraiu até a chegada da puberdade, quando a atração por garotas se instalou quase que de repente. Laura foi a minha primeira paixão. Platônica, como tantas outras que se seguiram até que a Marcinha desvirginou meus lábios. Nada além de um selinho, mas que me fez sentir o rei do pedaço.

Alguns foras depois me arrancaram a aura de galã, algo que jamais tive. Seja como for, tive dois namoros sérios até entrar na faculdade. Nessa época, temendo ser reprovado em alguma matéria, fui um estudante tão aplicado que voltei aos amores ilusórios.

Foi na formatura que conheci Márcia, quer dizer, já a tinha visto duas ou três vezes, mas de relance. Mentira. Para que mentir quando sempre soube que passaria a vida inteira entre números e aquela mulher apaixonada por literatura? Ela, aliás, mesmo que naquele tempo ainda não soubesse, me impulsionou a caprichar no trabalho de conclusão de curso, pois eu não queria correr riscos de não terminar a faculdade de Matemática em 1977.

O início do namoro se deu por causa do meu grande amigo Paulo César, que fez as devidas apresentações e, em seguida, me deixou em um canto com a sua prima. O resultado é que tudo pareceu pelo avesso e voltei para casa cabisbaixo, certo de que Márcia havia me achado um completo idiota.

Dois meses. Foi esse o período em que precisei conviver com a certeza de que havia perdido a mulher que eu supunha ser aquela com quem eu passaria toda a minha vida. Estava duplamente enganado. E o primeiro erro se desfez no local do meu primeiro emprego: uma escola no meu bairro.

— Luiz? Você por aqui?

— Márcia!

Ela era a nova professora de Literatura, enquanto eu estava fadado a ser o terror dos alunos avessos à Matemática. Tentei escolher as palavras para não colocar uma pá de cal sobre qualquer possibilidade de sair com Márcia, nem que fosse para tomarmos um sorvete na saída do trabalho. Talvez prevendo um quase certo desastre, Márcia se antecipou:

— Luiz, que tal um cineminha?

O cineminha aconteceu dois dias depois. A garota do adeus, com Paula McFadden e Richard Dreyfuss. Durante o filme, Márcia pousou a mão sobre a minha e, já nos créditos, me beijou.

Daquele dia até o altar decorreram quase dez anos. E poderia ter sido mais tempo, caso a Márcia não tivesse feito o pedido formal durante uma tarde no sofá do meu apartamento, logo após declamar Drummond e Pessoa.

— E aí, senhor Luiz, que tal um casamentinho?

Entre os padrinhos, estava o Paulo César. Já na igreja, antes da noiva chegar, o meu amigo e eu tivemos um breve interlúdio, cujas palavras até hoje me são tão caras:

— Luiz, até que enfim você teve coragem de pedir a mão da Márcia em casamento.

— Bem, na verdade, foi ela que pediu a minha.

O Paulo César me fitou por um instante e soltou uma gargalhada, que chamou a atenção de algumas pessoas próximas. Ninguém, ainda bem, se mostrou suficientemente curioso para perguntar o que estávamos conversando.

A lua de mel aconteceu em Petrópolis. Cinco dias de passeios e paixão verdadeira. Não que houvesse tantos segredos ainda a serem desvendados, porém algo mais poderoso pareceu se instalar de vez.

Os filhos, Laura, Rômulo e Helena, começaram a chegar, de dois em dois anos, a partir de 1989. Com a família aumentada e a correria do dia a dia, houve o afastamento natural entre Márcia e mim. Nada tão drástico a ponto de alguém desejar se separar, pelo menos tal pensamento jamais passou pela minha cabeça.

Já com os filhos criados, eles foram tomando caminhos diversos. Laura se tornou professora universitária, Rômulo entrou para o Banco do Brasil e Helena, muito melhor em números do que eu, conseguiu uma bolsa para estudar fora. Ficamos apenas a minha mulher e eu em casa. E tudo pareceu ganhar uma nova versão de algo que havíamos vivenciado na nossa juventude.

— E aí, Luiz, que tal um namorinho?

E lá estava eu nos braços da linda esposa. Não tive dúvida de que passaria o resto dos meus anos, que esperava serem muitos, ao seu lado. Pela segunda vez, estava enganado.

— Você tem certeza?

— Os exames estão aqui.

— Não é possível, meu amor. Você está tão bem.

— Acontece, Luiz. A Dra. Viviane me explicou.

Fiquei sem chão ao ouvir a explicação da oncologista através da voz da minha esposa. Ela estava com câncer no pâncreas que já havia se espalhado. A Márcia nos deixou pouco antes do Natal passado.

Viúvo aos 71 anos, saía pouco de casa, apenas o necessário. Recebia a visita da família e amigos. Um dos poucos que parecia me entender era o Paulo César. Passávamos tardes praticamente em silêncio, apesar das palavras de conforto do primo da Márcia.

— Ela era incrível, Luiz.

— E devo a você por ter me apresentado a ela.

— É verdade, eu que apresentei vocês dois. E sabe o que eu fiz pra convencer a minha prima de te conhecer?

— Não. O que foi?

— Menti, Luiz, mas por uma boa causa.

— Mentiu?

— É. Disse que você era apaixonado por poesia.

Paulo César e eu choramos abraçados e, antes do meu amigo ir embora, eu lhe disse:

— Obrigado.

— Fica bem, Luiz.

Uma semana depois, o Paulo César me apareceu com uma caixa de sapato e, antes que eu pudesse questioná-lo sobre aquilo, algo se mexeu.

— Luiz, o nome dela é Cecília Meireles, mas acho que vai acabar virando Ceci.

Ceci, uma vira-lata malhada, passou a ser a minha companheira. A danada dá trabalho, porém me ajuda a sobreviver. Ontem mesmo, enquanto estava preparando uma xícara de café, olhei pela janela e notei que a minha cachorra estava entretida com algo na varanda.

— Ei, Ceci, o que você está mexendo aí?

Ela virou a cabeça na minha direção e, em seguida, começou a pisotear e tentar abocanhar algo no piso. Curioso, peguei meus óculos e fui até a minha filha felpuda. Peguei-a no colo e, então, decifrei o motivo de tanta animação: uma formiga tão minúscula de dar dó. Por sorte, a miudinha conseguiu fugir pela beirada e se embrenhou no mato.

Agora sei o que é bom pra tosse. Obrigado, mamãe!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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