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Camadas

Fases do amor

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

O amor não chega de uma vez, como um pacote completo. Ele chega em camadas, em estações, como o vinho que vai ganhando corpo com o tempo. Nasce criança, cresce jovem, amadurece adulto e, por fim, torna-se ancião sereno. E em cada fase, revela uma face diferente de si mesmo.

Na infância, o amor é puro. É a menina que segura a mão do avô e sente o mundo inteiro caber naquela palma enrugada. É o menino que chora porque a professora elogiou seu desenho torto. Não tem nome ainda, nem corpo de desejo. É só um calor no peito, uma certeza sem explicação de que o mundo é bom porque existe alguém que nos olha como se fôssemos a coisa mais importante dele.

Na adolescência, o amor vira tempestade. É urgente, desajeitado, dramático. Bate no peito como tambor de escola de samba. A gente ama como se fosse morrer amanhã: com ciúmes possessivos, com declarações escritas em guardanapos, com beijos que parecem salvar o mundo. Sofre-se por um olhar que demora dois segundos a mais, por um “tudo bem” dito sem olhar nos olhos. É o amor que machuca deliciosamente, porque ainda não aprendeu a se proteger. É fogo que queima para saber que está vivo.

Na juventude adulta, o amor se torna construção. Sai do delírio e ganha tijolos. Agora é escolher a mesma pessoa todos os dias, mesmo quando ela deixa a louça na pia ou ronca do lado. É dividir contas, dividir sonhos, dividir o silêncio do fim do dia. Aqui o amor tem cheiro de café pela manhã e de roupa lavada. Tem brigas que terminam em abraços e promessas que são renovadas não por romantismo, mas por escolha consciente. É o amor que aprende a perdoar, a ceder, a esperar.

Na maturidade, o amor se aquieta e se aprofunda. Torna-se rio de águas calmas que já cavou seu leito. É cumplicidade: um olhar do outro lado da sala que diz tudo. É cuidar do outro quando a doença chega, é rir das mesmas piadas pela milésima vez, é agradecer em silêncio pela vida compartilhada. Os corpos mudam, os desejos se transformam, mas o que resta é uma ternura tão grande que quase dói. É o amor que já não precisa provar nada ele simplesmente é.

E na velhice, o amor se faz gratidão e memória. É segurar a mão enrugada da pessoa com quem se viveu uma vida inteira e sentir que o tempo foi generoso. É lembrar dos amores perdidos pelo caminho, dos que se foram cedo demais, dos que ficaram apenas como lição. É olhar para os netos e ver o próprio amor se multiplicando. Aqui, o amor não pede mais nada. Ele apenas agradece por ter existido.

O curioso é que todas essas fases coexistem dentro de nós. O menino que amava a avó ainda mora no velho de oitenta anos. A adolescente apaixonada ainda suspira às vezes dentro da mulher de quarenta. O amor não substitui ele acumula. Carrega todas as versões de si mesmo, como um baú antigo cheio de cartas, fotos amareladas e cicatrizes que viraram medalhas.

No fim das contas, amar é a única coisa que fazemos em todas as idades, de formas diferentes, mas sempre com a mesma essência: a coragem de se entregar, mesmo sabendo que tudo é passageiro.

E vale a pena. Em todas as fases.

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