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Recordações

A Casa das Meninas: Onde a infância ainda mora

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

A Casa das Meninas carrega uma história afetiva enorme para mim e para muita gente. São recordações que atravessam gerações, corações e permanecem vivas na memória.

Era uma casa diferente, daquelas que pareciam caber o mundo inteiro e onde sempre rolava uma lambada daquelas, de tirar o fôlego.

A casa da tia Neca vivia em três movimentos frenéticos: corte e costura, comida boa e muito forró, além das inesquecíveis lambadas com o tio Isaque.

Esperávamos ansiosamente pelas férias, ou por qualquer período sem aula, para subir a serra e aproveitar o casarão.

Engraçado como, quando somos crianças, tudo parece enorme. Lembro-me de muitos quartos, um dando passagem para o outro. Só isso já era uma aventura.

Aqueles janelões de madeira eram motivo de disputa. Todos queriam dormir perto deles só para abri-los pela manhã, imitando as cenas dos filmes, contemplando aquela vista do alto da cidade.

A casa vivia cheia. E aquela porta estilo saloon, conhecida por nós como porta de bangue-bangue…

Ah! Toda hora eu inventava uma desculpa para ir até a cozinha só para passar por ela. Era chique e muito diferente da minha realidade… Kkkk

Havia um charme especial nas escadas que cortavam um pequeno jardim inclinado, onde floresciam enormes flores amarelas, parecidas com hibiscos. Acho que eram alamandas-amarelas.

Brincávamos de pique-esconde, mas o ponto alto era descer para o terreno, que ficava dois andares abaixo da casa. Invadir a confecção ou a oficina do tio era top, mas verdadeira aventura era atravessar a ponte do terreno para chegar à rua sem que ninguém percebesse.

Fizemos isso muitas vezes… até descobrirem nossa estratégia e passarem a trancar os portões.

Eu também gostava de me aventurar entre as máquinas de costura, passar as peças na overloque e ajudar a embalar os suspiros que seriam vendidos. Na prática, era um suspiro na boca e três no saco.

E a cocada feita com a própria água do coco? Hummm…

Quando anoitecia, começava o arrasta-pé.

Aquela portinha verde, na lateral da oficina, parecia um convite para entrar na dança. Eram muitos giros, risadas e música. Não faço ideia de quantas horas dançávamos, mas, quando tudo terminava, nossos pés estavam cheios de calos e bolhas por causa dos calçados nada apropriados para dançar.

Aquela casa, hoje tão quietinha, já foi uma explosão de sons, gargalhadas, música e vida.

O tempo não perdoa. Ele transforma, silencia e leva muita coisa consigo. Mas também nos presenteia com lembranças que permanecem guardadas no coração, esperando apenas uma boa conversa para voltarem à vida.

A Casa das Meninas continua de pé. Talvez não com o mesmo movimento, nem com o mesmo barulho de antes, mas permanece inteira dentro de quem viveu cada canto, cada dança, cada cheiro de comida e cada risada ecoando por aqueles corredores. Porque há casas que deixam de ser apenas construções e se tornam morada permanente da nossa memória.

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