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Dr. Leo

Como o verme Toxocara afeta cães, gatos e seres humanos

Publicado

Autor/Imagem:
Leonardo Bernar - Foto Francisco Filipino

A relação entre os seres humanos e seus animais de estimação é baseada em afeto e companheirismo, mas também exige cuidados constantes com a saúde. Entre as diversas ameaças invisíveis que podem afetar o bem-estar dos pets e de suas famílias, destaca-se a toxocaríase. Essa infecção parasitária, bastante comum em todo o mundo, serve como um alerta claro de como a saúde animal, humana e ambiental estão profundamente interconectadas no nosso dia a dia.

O problema é causado por vermes cilíndricos conhecidos cientificamente como Toxocara canis, que atinge os cães, e Toxocara cati, que afeta os felinos. Esses parasitas vivem e se alojam no intestino delgado dos animais, competindo pelos nutrientes daquilo que eles comem. Embora possam atingir bichos de todas as idades, os filhotes são as principais vítimas e os que mais sofrem com as consequências da infecção.

O grande desafio no controle dessa doença está na incrível capacidade de reprodução e resistência do verme. Uma única fêmea do parasita pode produzir dezenas de milhares de ovos todos os dias, que são eliminados nas fezes dos cães e gatos. No momento em que saem do corpo do animal, esses ovos ainda não conseguem infectar ninguém, precisando de um tempo na terra para se desenvolverem.

Quando encontram condições favoráveis de calor e umidade na natureza, esses ovos se tornam infectantes em poucas semanas. O maior perigo é que, uma vez desenvolvidos no solo, eles ganham uma casca protetora extremamente resistente. Graças a essa proteção, os ovos do verme conseguem sobreviver por até cinco anos na terra de quintais, praças e parques públicos, resistindo ao sol e à chuva.

A infecção dos animais acontece principalmente por via oral, quando eles andam por esses ambientes contaminados. Ao lamberem as patas, beberem água suja ou ingerirem alimentos que tiveram contato com o chão, os pets acabam engolindo os ovos. No caso específico dos gatos, o contágio também ocorre frequentemente quando eles caçam e comem pequenos roedores ou aves que já carregavam as larvas.

Depois que o animal engole o ovo, o ciclo do verme dentro do corpo se torna complexo, especialmente nos mais jovens. As larvas nascem no intestino, atravessam a parede intestinal e entram na corrente sanguínea, viajando por órgãos vitais como o fígado e os pulmões. Nos pulmões, elas causam irritação e fazem o filhote tossir; ao serem tossidas e engolidas novamente, elas voltam ao intestino para virarem adultos.

Além do contágio pelo ambiente, os filhotes possuem outras duas formas muito comuns e preocupantes de pegar a doença diretamente de suas mães. Durante a gestação de uma cadela infectada, as larvas que estavam escondidas e adormecidas nos músculos se ativam e atravessam a placenta, infectando os bebês antes mesmo do nascimento. Tanto em cadelas quanto em gatas, o parasita também é transmitido logo nos primeiros dias de vida através do leite materno.

Essas formas de transmissão explicam por que tantos filhotes apresentam uma carga pesada de vermes mesmo quando nunca saíram de casa ou do canil. Na rotina das clínicas veterinárias, os profissionais conseguem identificar o problema facilmente pelo aspecto físico do animal. O sinal mais clássico é a famosa “barriga de verme”, onde o abdômen do filhote fica visivelmente inchado, redondo e duro.

Além do crescimento da barriga, os animais infectados demonstram sinais claros de má nutrição e fraqueza geral. Eles apresentam atraso no crescimento, perda de peso progressiva e ficam com os pelos opacos, secos e sem brilho. É comum que os filhotes fiquem apáticos, sem energia para brincar, sofram com gases constantes e demonstram episódios frequentes de diarreia e vômitos, nos quais o tutor pode ver os vermes compridos se mexendo.

Em casos extremamente graves, quando a quantidade de vermes dentro do intestino é muito alta, pode ocorrer uma complicação médica perigosa chamada de obstrução mecânica. Os parasitas se novelam e formam um verdadeiro “bolo de vermes” que entope o canal intestinal do filhote. Essa condição gera dores abdominais intensas, vômitos ininterruptos e exige atendimento veterinário imediato, pois há risco de o intestino se romper.

Para confirmar o diagnóstico com precisão, o médico-veterinário avalia todo o histórico do animal e solicita exames laboratoriais complementares. O principal deles é o exame de fezes, que busca identificar os ovos do parasita sob o microscópio. Como o verme pode não liberar ovos todos os dias, os veterinários costumam recomendar a coleta de amostras de fezes de três dias seguidos para garantir a eficácia do teste.

O tratamento da toxocaríase é feito através do uso de medicamentos vermífugos específicos, que devem ser sempre prescritos por um profissional de confiança. No entanto, o combate eficiente exige que o tratamento comece muito cedo, aplicando o remédio nas primeiras semanas de vida dos filhotes e repetindo as doses conforme o protocolo. Também é fundamental tratar as mães grávidas e amamentando para cortar o ciclo de transmissão familiar.

O aspecto mais crítico da toxocaríase, que a transforma em um problema de saúde pública, é o fato de ser uma zoonose — uma doença que passa de animais para humanos. As pessoas, em especial as crianças pequenas, são consideradas hospedeiras acidentais. A contaminação humana ocorre quando a criança brinca na terra ou em caixas de areia de parquinhos que foram usadas por cães e gatos de rua, levando as mãos sujas à boca.

No corpo humano, o verme se comporta de maneira diferente: as larvas nascem no intestino, mas não conseguem virar vermes adultos. Em vez disso, elas passam a vagar sem rumo pelos órgãos internos da pessoa, uma condição chamada de “larva migrans”. Essas larvas podem se alojar no fígado, nos pulmões ou, em um cenário ainda mais grave, migrar para os olhos, podendo causar danos irreversíveis à visão da criança.

A boa notícia é que a prevenção dessa doença é simples e depende diretamente de hábitos básicos de higiene e responsabilidade. Os tutores devem recolher as fezes de seus animais imediatamente durante os passeios e manter os quintais limpos para evitar o acúmulo de ovos no solo. Somado a isso, manter a vermifugação dos pets em dia e lavar bem as mãos após brincar com os animais ou mexer no jardim são atitudes que protegem toda a família.

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Instagram: @leoobernar

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