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Salete e a língua ferina

A teoria dos Osvaldos

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Salete, língua ferina, não escolhia ouvidos para destilar veneno. Bastava oportunidade e desenrolava a língua, muito bem treinada por anos de prática.

Churrasco na casa da dona Aurora, festeira das boas.

— Mulher, tu por acaso sabe quem é aquele bonitão ali sentado?

— Sei muito bem, Salete. É o novo namorado da Laurentina.

— Sério?

— Por quê? Tá interessada, é?

— Hum! E eu sou lá mulher de dar trela pra qualquer um, Roberta?

— Sei… Então, por que perguntou?

— Melhor não falar, amiga. Você bem sabe que não sou de arrumar confusão.

— Ih, Salete, para com isso. Se começou, tem que ir até o fim.

As mulheres se entreolharam por um instante. Salete puxou o ar com força para ganhar fôlego e, em seguida, desandou a falar.

— Pois tu acredita que ele já deu em cima de duas só nesses dez minutos que estamos aqui?

— Hum! O Osvaldo?

— E o nome do bofe é Osvaldo?

— É. Por quê?

— Já vi tudo!

— Viu o quê, Salete?

— Todo Osvaldo é safado. Nenhum presta.

— Olha aqui, Salete, que história é essa? Meu avô se chama Osvaldo.

— Hum… E ele nasceu antes ou depois de 1970?

— Bem antes, né, Salete?

— Ah, então, está explicado. O seu avô pertence aos Osvaldos antigos, quando ainda eram confiáveis. O problema é com a safra mais nova, esses que vieram depois de 1970. E ainda há os piores.

— Piores?

— Sim, Roberta. Os nascidos entre 1980 e 1990. E, olhando pra cara daquele ali… acho que 1985. São os piores dos piores, mulher.

— Salete, fica quieta. A Laurentina está vindo pra cá.

Foi o tempo para que as amigas se recompusessem e cumprimentassem a Laurentina.

— Pensei que vocês não fossem vir.

— Laurentina, e tu acha mesmo que a Roberta é de perder essa boca-livre da dona Aurora?

— Eu? Tu que é uma esfomeada, Salete.

Depois de alguns bons minutos de conversas e risadas entre as colegas, eis que a Laurentina quis porque quis apresentar o novo namorado para a Salete. Esta, por sua vez, encarou a Roberta, mas nada disse. E lá foram as três na direção do Osvaldo. Um tipão. Vesgo, é verdade, mas um tipão mesmo assim.

Feitas as devidas apresentações, o quarteto de última hora engrenou num bate-papo descontraído até perto do final da confraternização. Laurentina, braços dados com o amado, foi embora, enquanto Salete e Roberta se prolongaram um pouco em despedidas com a anfitriã.

Quase meia hora depois, as duas também saíram e, já na calçada, a Roberta não perdoou a amiga:

— Nossa, tu é fofoqueira, hein, Salete!

— E como sou! Adoro!

— Mas, Salete, e tu não tem vergonha de falar mal do Osvaldo?

— Ah, e como eu ia lá saber que o sujeito tinha os olhos trocados?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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