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O café

O gosto da madrugada

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Raimundo nem lembrava o motivo que o arrancara da cama àquela hora da madrugada. Se era hábito ou falta do que fazer, parecia não importar ao sujeito. Aposentadoria — dizia Ofélia, a esposa — tinha dessas coisas.

Lavou o rosto, talvez em busca de alguém que há muito não conseguia enxergar. Envelhecera, é verdade, mas algo parecia incomodá-lo além da flagrante decrepitude. Deu as costas ao próprio reflexo.

Na cozinha, preparou o café. Café de verdade. Coado. Coador de pano. Nada de filtro de papel. Solúvel, então, Raimundo torcia os lábios.

— Acordado a essa hora?

Raimundo, xícara na mão, apenas olhou para a companheira. Tomou um gole.

— Quer? Tem mais na garrafa.

— Não. Vai me tirar o sono.

Ofélia deu um beijo no rosto do marido. 

— Vou voltar pra cama. Quer vir também?

Ela sorriu, se virou e voltou para o quarto. Raimundo ainda teve tempo de observá-la. As curvas que outrora o haviam fisgado. Desistiu do café e foi deitar com a mulher.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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