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Amém

Faça-se a luz!

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Matheus Arcaro - Foto Francisco Filipino

Depois de 36 horas, finalmente a energia elétrica foi reestabelecida por aqui. No grupo do condomínio, logo vieram as mensagens religiosas, “Glória a Deus”, “Deus é bom o tempo todo”. Foram tantas que não me contive, soltei uma: “Obrigado, Satanás”. Como era de se esperar, as reações foram de horror. Porém, uma das pessoas se mostrou curiosa. Eu disse que era satanista e o rapaz me pediu para explicar como isso funcionava. Liguei para ele e pus-me a descrever alguns rituais da minha fé.

Veja bem, o templo é suntuoso, colunas clássicas, pé direito alto, objetos dourados. Num primeiro momento, o satanista-mor interpreta trechos das escrituras satânicas, dando ênfase nas punições que são direcionadas àqueles que não seguem os mandamentos. O rapaz me perguntou que tipo de castigos são mais comuns. Contei sobre uma situação em que o Satanás ordenou que dois ursos devorassem 42 jovens que zombaram de um senhor calvo. Ou da vez que o Senhor das Trevas enviou um dilúvio para destruir a Terra inteira porque não estava satisfeito com os rumos que a humanidade havia tomado.

Ficou estarrecido, o pobre. Quanta maldade, exclamou. Respondi “amém” e emendei dizendo que nem só de crueldade era constituído nosso livro sagrado. Há passagens mais prazerosas, fique você sabendo. Por exemplo, o caso das duas irmãs que embebedaram o próprio pai para transar com ele. Ou a mulher que se disfarçou de prostituta para engravidar de seu sogro.

Com a voz trôpega, pediu-me para contar outros momentos do rito satânico. Descrevi, então, que os oradores costumavam falar em línguas estranhas; que pessoas se contorciam quando ouviam determinados comandos; que os satânicos treinados expulsavam – com gritos e gestos bruscos – criaturas angelicais do corpo de alguns presentes.

Ele ficou em silêncio. Alguns segundos depois, sussurrou: o que mais?

Aí, contei sobre um dos momentos mais importantes da cerimônia: quando o Satanista-Mor assevera que, quem não contribuir financeiramente, não terá direito à morada no inferno. E descreve as torturas dos que não são salvos. Uma delas: querubins tocando harpa ao pé do ouvido por toda a eternidade. Neste momento, ajudantes do Diabo passam com as maquininhas de cartão e exibem no telão o QRcode do Pix.

E vocês doam a quantia que puderem, perguntou o rapaz. Em teoria sim, respondi. Mas o Satanista-Mor frisa que é adequado contribuir com 10% de tudo o que a gente ganha. E, geralmente, as pessoas fazem isso.

Por medo ou por acreditarem que o Diabo lhes dará em dobro, perguntou o rapaz. Respondi com uma pergunta: Há diferença?

Nos despedimos. Ele me disse “Durma com Deus”, ao que retribuí “Durma com o Satanás”.

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Matheus Arcaro é mestre em Filosofia pela Unicamp. Professor de filosofia, história da arte e escrita literária. Escritor com obras publicadas em conto, romance, poesia, infantil e filosofia. As máscaras de Nietzsche é seu nono livro.

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