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Marina Dutra

Quem tenta controlar tudo quase sempre está tentando esconder alguma dor

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Autor/Imagem:
Marina Dutra - Foto Irene Araújo

O colérico costuma ser admirado pela força, pela coragem e pela capacidade de decidir. Mas, muitas vezes, por trás de alguém que parece tão seguro existe uma pessoa que aprendeu, desde cedo, que demonstrar fragilidade era perigoso.

Dando continuidade à nossa série sobre os quatro temperamentos, hoje vamos falar sobre o temperamento colérico. Talvez este seja o perfil mais incompreendido de todos. Enquanto alguns o enxergam como um líder nato, outros o definem apenas como alguém impaciente ou autoritário. A verdade é que o colérico possui características extraordinárias, mas que, sem equilíbrio, podem se transformar em fonte de sofrimento para si e para quem convive com ele.

O colérico costuma ser uma pessoa de ação. Gosta de desafios, toma decisões com rapidez e sente necessidade de fazer as coisas acontecerem. Tem facilidade para assumir responsabilidades e dificilmente espera que outra pessoa resolva um problema que acredita poder solucionar. Por isso, costuma ocupar posições de liderança e transmitir uma imagem de força e segurança.

Mas existe um lado que poucas pessoas enxergam.

Muitas vezes, quem sente necessidade de controlar tudo não está buscando poder. Está tentando evitar frustrações. O controle acaba funcionando como uma forma de proteção. Quando algo foge do planejamento, surge a irritação, a impaciência ou a necessidade de assumir o comando da situação.

É comum que o colérico tenha dificuldade para delegar tarefas. Ele acredita que fará melhor, mais rápido ou com mais eficiência. Aos poucos, passa a carregar responsabilidades demais, vive sobrecarregado e alimenta a sensação de que precisa dar conta de tudo sozinho.

Nos relacionamentos, esse funcionamento também aparece. O colérico costuma demonstrar amor através do cuidado, da proteção e da disposição em resolver problemas. Entretanto, nem sempre consegue expressar com facilidade suas emoções. Em vez de dizer que está machucado, reage com irritação. Em vez de admitir medo, tenta controlar. Sem perceber, cria uma armadura que protege suas dores, mas também dificulta a intimidade.

Existe ainda um aspecto importante que merece reflexão.

Quando falamos de pessoas excessivamente agressivas ou controladoras, é comum enxergarmos apenas o comportamento. Mas, na prática terapêutica, muitas vezes encontramos histórias marcadas por rejeição, abandono, humilhação ou ambientes onde o afeto nunca foi aprendido.

Pessoas feridas podem acabar ferindo outras pessoas.

Isso não justifica uma agressão, uma traição ou qualquer comportamento abusivo. Cada pessoa é responsável pelas próprias escolhas. Mas compreender a origem desses padrões nos ajuda a perceber que, por trás de muitos comportamentos difíceis, existe uma dor que nunca foi acolhida.

Da mesma forma, alguns homens vivem buscando validação através de sucessivas conquistas amorosas. Em muitos casos, não se trata apenas de desejo, mas de uma tentativa constante de preencher inseguranças profundas. Precisam sentir que continuam sendo escolhidos porque, no fundo, nunca aprenderam a acreditar no próprio valor.

Se você se identificou com esse perfil, talvez exista uma pergunta importante para refletir: você está liderando sua vida ou tentando controlar tudo para não entrar em contato com aquilo que sente?

Existe uma grande diferença entre liderança e controle. A liderança inspira, desenvolve e fortalece. O controle desgasta, afasta e cria relações baseadas no medo, e não na confiança.

Na terapia, muitos coléricos descobrem que podem continuar sendo fortes sem precisar carregar o mundo inteiro nas costas. Aprendem que pedir ajuda não diminui sua competência, que demonstrar sentimentos não reduz sua autoridade e que vulnerabilidade não é sinal de fraqueza, mas de maturidade emocional.

Porque a verdadeira força não está em nunca sentir medo. Está em não permitir que ele conduza suas escolhas.

Reflexão da semana: Quem tenta controlar tudo, muitas vezes, não está buscando poder. Está apenas tentando impedir que antigas feridas voltem a doer.

Na próxima semana, encerramos nossa série sobre os quatro temperamentos falando sobre o melancólico. Vamos compreender por que algumas pessoas se cobram tanto, têm dificuldade de reconhecer as próprias conquistas e vivem acreditando que nunca são boas o bastante.

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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa

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