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Outubro é logo ali

Convenções caminham para o fim com o voto sitiado

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

As convenções partidárias caminham para o encerramento. Até o próximo dia 5 de agosto, todas terão cumprido o ritual previsto na legislação eleitoral. Candidaturas homologadas, alianças formalizadas, discursos, fotografias e uma infinidade de vídeos produzidos para abastecer as redes sociais. A liturgia estará concluída. O verdadeiro desafio da eleição, porém, apenas começará.

Talvez nunca tenha sido tão difícil convencer um eleitor.

Não por falta de candidatos, partidos ou instrumentos de comunicação. O problema é mais profundo. O eleitor chega à campanha cercado por convicções construídas durante anos em ambientes onde quase sempre se escuta a mesma opinião, se compartilha a mesma indignação e se reforça a mesma rejeição. O voto continua livre. Mas nunca esteve tão sitiado.

A convenção nacional do PL talvez tenha sido a primeira demonstração prática dessa nova realidade. Realizada em meio ao ambiente de tensão provocado pela prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, ela nasceu sob a expectativa de consolidar a candidatura de Flávio Bolsonaro e inaugurar uma nova etapa da campanha presidencial. O resultado foi outro. Javier Milei acabou ocupando parte significativa dos holofotes. O vídeo produzido por inteligência artificial para reproduzir uma manifestação de Jair Bolsonaro recolocou no centro da convenção um tema que a candidatura precisava evitar: a situação jurídica do ex-presidente. Poucos dias depois, manifestações de Carlos Bolsonaro reacenderam as tensões com Michelle Bolsonaro, desmontando rapidamente a imagem de pacificação que se buscava transmitir.

No fim das contas, a convenção lançou Flávio Bolsonaro, mas o noticiário continuou girando ao redor de Jair, de Milei e das divergências familiares. A candidatura, que deveria ocupar o centro da narrativa, terminou dividindo espaço com circunstâncias que escaparam ao roteiro cuidadosamente preparado.

O episódio não revela apenas uma dificuldade do PL. Expõe um desafio que acompanhará todas as campanhas presidenciais. A política perdeu o controle da narrativa. O palco já não encerra um evento. As redes sociais, os grupos de mensagens, os algoritmos e a velocidade da informação prolongam a disputa por tempo indeterminado. A campanha não termina quando o candidato deixa o microfone. Ela apenas muda de ambiente.

É justamente nesse cenário que começa o verdadeiro trabalho das equipes de comunicação.

Durante décadas, os estrategistas eleitorais foram chamados para construir candidatos competitivos, apresentar propostas e explorar as fragilidades dos adversários. Em 2026, talvez recebam a missão mais difícil de todas. Antes de convencer alguém a mudar de voto, precisarão convencer o eleitor a voltar a ouvir. Parece uma diferença sutil. Não é. Trata-se de reconstruir a disposição para o diálogo em uma sociedade que passou anos premiando a confirmação de certezas e transformando o contraditório em ameaça.

É por isso que a movimentação de Ronaldo Caiado desperta atenção crescente em segmentos do mercado financeiro, da indústria e do agronegócio. Não necessariamente porque sua candidatura já represente uma alternativa consolidada à polarização, mas porque ela talvez seja o primeiro teste concreto sobre a possibilidade de construir uma mensagem capaz de atravessar bolhas políticas cada vez mais impermeáveis. O desafio de Caiado não é apenas crescer nas pesquisas. É descobrir se ainda existe espaço para persuadir um eleitor que, antes mesmo do início oficial da campanha, acredita que só existem dois caminhos possíveis.

Esse, aliás, será o desafio de qualquer candidatura que pretenda alterar o rumo da disputa.

As campanhas sempre procuraram conquistar votos. Desta vez precisarão conquistar algo muito mais raro: atenção genuína. Precisarão fazer o eleitor interromper, ainda que por alguns instantes, o fluxo permanente de informações que apenas confirma aquilo em que ele já acredita. Será um trabalho de persuasão, mas também de reconstrução da confiança.

O voto de rejeição produz vencedores. Nunca produziu, por si só, bons governos. Escolher apenas quem parece menos ruim não garante que o país encontrará um caminho melhor. Ao contrário. A política, como a própria vida, nunca elimina a possibilidade de piorar.

Talvez essa seja a verdadeira eleição de 2026. Não apenas a disputa entre Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado ou qualquer outro candidato. A batalha decisiva será travada contra o cerco informacional e emocional que aprisiona o eleitor brasileiro. Porque um voto sitiado não escolhe. Apenas reage.

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Texto publicado originalmente no HJPR

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