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Vozes da Literatura

José Ngola Carlos debate literatura, educação e o contexto angolano

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

Para o escritor, professor e pesquisador angolano José Ngola Carlos, o ato de escrever nunca foi um exercício de isolamento, mas um compromisso social inegociável. Longe de se restringir aos manuscritos guardados na gaveta, sua trajetória literária — iniciada de forma despretensiosa em pedaços de papel de caderno — ganhou o mundo ao se transformar em uma ferramenta de intervenção acadêmica e cultural. Hoje, por meio de seus artigos científicos e de opinião focados na realidade socioeducativa de Angola, o autor utiliza a palavra como um espelho crítico e um motor de transformação pedagógica e humana.

Nesta entrevista profunda para a coluna Vozes da Literatura, o colunista do Jornal Cultural ROL detalha os bastidores de seu processo criativo, que equilibra a sensibilidade dos estímulos circunstanciais com o rigor metodológico da revisão. Com reflexões inspiradas em grandes pensadores como Paulo Freire e Allan Kardec, José Ngola Carlos discute o papel dos jornais independentes na projeção internacional da literatura lusófona, os desafios da era digital na formação de leitores assíduos e a empolgante expectativa em torno de sua tese de doutorado. Acompanhe, a seguir, este diálogo essencial sobre a utilidade da palavra escrita.

Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, você reconhece como decisivo em sua trajetória? O que o levou a tornar seus textos públicos?

A elaboração de poemas espontâneos, em pedaços de papeis de caderno, foi o meu primeiro gesto de escrita literária. Hoje, os meus textos (acadêmicos, científicos e de opinião voltados à educação em Angola e no mundo) são tornados públicos porque percebo que quem escreve, e por via deste meio se propõe a fazer o bem, não pode escrever para si mesmo.

Entre conto, crônica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual gênero você encontra maior liberdade e precisão para dizer o que deseja? Por quê?

Os artigos de opinião e os científicos são os meus prediletos porque ambos me permitem olhar para a minha realidade socioeducativa, pensar nela e sugerir melhorias, o que, não melhorando os outros, melhora a mim e a minha prática didático-pedagógica.

Quais são as fontes mais recorrentes de sua escrita: experiências pessoais, observação do cotidiano, memória, leitura de outros autores, pesquisa, diálogo com outras artes ou algo diferente?

Em verdade, todas estas fontes inspiram-me consideravelmente, com particular destaque para a própria experiência docente, a observação do cotidiano e a leitura de outros autores.

Que condições de trabalho sustentam a sua produção literária? Você depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de estímulos mais circunstanciais?

Para quem se apoia com elevado grau na boa disposição mental, os estímulos circunstanciais contam muito, o que é o meu caso. Porém, quando se faz necessário, a gestão das ideias, sempre me vi impelido a, primeiro, conservar as inspirações em rápidos e pequenos textos e, depois, preservá-los para reescrita futura.

Quando trabalha com ficção narrativa, como você descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde? Em que momento percebe que ela se tornou suficientemente complexa para sustentar a história?

Se me permitir a honestidade, tenho ciência de apenas duas obras de ficção narrativa produzidas por mim e ambas são frutos de ensaios para a produção do meu primeiro livro. Pelo que, ficção narrativa não é presentemente um campo de atuação constante. Mas a descoberta do que uma personagem quer, teme ou esconde pode surgir da trama geral da história, por predefinição do autor, ou da necessidade não prevista no desenrolar do texto em construção.

Como funciona a revisão no seu processo? O que costuma mudar de modo decisivo entre a primeira versão de um texto e aquela que você considera publicável?

A revisão definitiva dos meus textos compreendem, geral e necessariamente, o estabelecimento de um tempo mínimo de uma semana depois da primeira escrita, que também não é isenta de revisões imediatas ao longo da produção de cada parágrafo. Volvidas uma semana, volto a ler o texto tendo em vista o seu natural fluir e a sua correção linguística (coerência e coesão, fundamentalmente). Esta última, não raro, é a que mais modificações sofre.

O que a publicação no Jornal Cultural ROL alterou — ou confirmou — em sua relação com a escrita, com os leitores e com outros autores de língua portuguesa?

A nossa estadia no mundo e com o mundo, diria o nosso mui estimado professor Paulo Freire, não é e não pode ser neutra, tanto porque nela nos moldamos, pelas relações uns com os outros, quanto porque a moldamos mediante os nossos quefazeres e nãofazeres. Assim sendo, o mundo é uma escola na qual é impossível estar sem nela algo aprender. Em analogia, esta é a minha relação com o Jornal Cultural ROL, um espaço fundamentalmente educativo, no qual é impossível fazer parte sem ser moldado e moldar.

Há algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado sua percepção sobre um texto, sobre o público ou sobre a função daquilo que escreve?

Há vários. E estes resultam, com frequência, de meus colegas de profissão (professores do Liceu Nº 314,4 de Janeiro) que não deixam de ler e discutir comigo o valor utilitário de cada um dos meus artigos de reflexão mensais publicados no Jornal Cultural ROL. Significativos também têm sido a pronta leitura e comentários de nosso Editor-Chefe, Sergio Diniz da Costa, cujo exemplo de paciência para com os colunistas, maior experiência literária em relação a mim e perseverança no trabalho é, para mim, muito inspirador.

Na prática, o que os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possível para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remuneração continuam presentes?

Para o meu contexto angolano, os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possíveis a visibilidade internacional e a credibilidade nacional dos trabalhos nela publicados. O maior escolho no acesso aos jornais está, penso eu, no limite necessário a ser observado quanto ao número de colunistas. Quanto à visibilidade ou remuneração, não registo nenhum inconveniente para o meu contexto angolano.

Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no Café Literário/Notibras: que diferenças você percebe entre esses públicos e entre as formas de recepção dos textos em cada veículo?

Dado que desconheço a filosofia e a dinâmica de trabalho do Café Literário/Notibras, por não lhe acompanhar o trabalho assiduamente e não fazer parte das suas fileiras de colunistas, sinto-me desqualificado a emitir uma opinião que valha a consideração do entrevistador e dos leitores.

Que sentido há em manter ficção, poesia e crítica cultural dentro de um portal jornalístico marcado pelo fluxo das notícias? Essa convivência altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?

Uma situação como esta que acaba de descrever, para mim, remete à reflexão de mundo, onde reina a diversidade. E, conforme percebo, a diversidade contribui grandemente para significar a vida no mundo, assim como os diferentes gêneros textuais presentes em um jornal lhe dão a necessária vida e beleza. Todavia, no exercício para se quebrar a monotonia, a mesmice e contribuir para o enriquecimento do todo, a diversidade é algo que se impõe!

Qual é, hoje, o obstáculo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estratégia tem funcionado — e qual você considera superestimada?

O pouco domínio das redes sociais e a consequente inatividade nela, assim como o descaso ao leitor, penso eu serem alguns dos obstáculos concretos na formação de leitores recorrentes. E, a estratégia passa precisamente por isto, pelo maior empenho do escritor na divulgação dos links de seus textos em várias redes sociais, interagindo cordial e prontamente com seus leitores. Como diria o professor Allan Kardec, eis ali o remédio ao pé da enfermidade!

“O sentimento de ser útil é consolador e é isto que sempre almejo com os meus textos”

Ao imaginar alguém lendo sua obra, que tipo de experiência você espera provocar? Há efeitos que você deliberadamente evita buscar no leitor?

O sentimento de ser útil é consolador e é isto que sempre almejo com os meus textos. Pouca coisa me satisfaria senão o sentimento de que, quem leu o meu texto pode alguma coisa boa aprender dele.

Há um projeto em curso — livro, coletânea, pesquisa, novo gênero, revista, oficina ou outra iniciativa — que ajude a compreender o momento atual de sua escrita?

Sim, sim! Num misto de ansiedade e alegria, atualmente estou envolvido com a elaboração da minha proposta de tese doutoral, que, neste meio termo, foi submetida à comissão acadêmica avaliadora para as devidas apreciações.

Que prática, escolha ou disciplina você recomendaria a quem começa a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita você considera insuficiente ou enganoso?

Certa vez Osho disse: aprende-se a andar, andando. E aprende-se a nadar, nadando. Eis aqui o segredo que qualquer iniciante precisa levar a sério: praticar a arte com zelo e autocrítica constante.

Infelizmente, não conheço nenhum conselho digno de ser descartado, quando seu dador é motivado pelo bem querer. É competência, em última instância, de quem recebe o conselho avaliar as suas circunstância em relação ao que se sugere. Afinal, dado o seu alto grau de flexibilidade, um bom conselho se mal aplicado, também pode resultar em danos irreparáveis!

Que pergunta sobre sua escrita ou sobre a literatura contemporânea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda não apareceu?

Estou satisfeito por chegarmos até onde chegamos, com as perguntas que fez. E sinto-me grandemente honrado pela oportunidade em ser entrevistado. Muito obrigado!

…………………….

José Ngola Carlos, natural de Luanda (Angola) e morando atualmente em Malanje (Angola), é Doutorando em Educação na especialidade de Avaliação de Centros e Professores pela Universidade Internacional Ibero-americana (UNINI – México), Mestre em Educação na especialidade de Organização e Gestão de Centros Educacionais pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO – Espanha), Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Inglesa pela Universidade Agostinho Neto (UAN – Angola) e Professor de Língua Inglesa no Liceu Nº 314 – 4 de Janeiro, Malanje.

Obras:

Jornal Cultural ROL: https://jornalrol.com.br/?author=121

Figshare: https://figshare.com/authors/Jos_Carlos/21796808

Contatos:

WhatsApp: +244 933 196 447

E-mail: ngola21.jose@gmail.com

Facebook: José Ngola Carlos

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