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Mais um dia

O domingo que não chega

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Há pessoas para quem o domingo não é dia de descanso. É apenas o sétimo dia da mesma semana que nunca termina.

Elas acordam cedo, como sempre. O despertador toca no mesmo horário de segunda a segunda. O café é bebido em pé, o uniforme já está passado desde a noite anterior, e o ônibus ou o metrô leva embora mais um pedaço de vida. Enquanto a cidade ainda boceja e muitos viram para o outro lado do travesseiro, elas já estão no balcão, no caixa, na cozinha, na limpeza, na porta da loja ou no volante.

São os atendentes que sorriem para o cliente mal-humorado que veio “só dar uma olhada” no domingo à tarde. São as cozinheiras que preparam o almoço familiar de quem folga enquanto elas mesmas não sentam à mesa com os seus. São os motoristas, os seguranças, os enfermeiros, os repositores, os vendedores heróis anônimos de uma engrenagem que não pode parar.

O cansaço deles tem cheiro de fritura velha, de produto de limpeza, de suor disfarçado com desodorante. Tem gosto de marmita esquentada no micro-ondas do fundo da loja. Tem som de “próximo cliente” repetido até perder o significado. E tem a cor cinzenta de um dia que se arrasta sem nunca chegar ao fim.

Eles veem a vida dos outros pelo vidro. Famílias passeando de mãos dadas, casais tomando sorvete, crianças correndo no shopping. Enquanto isso, contam as horas para o momento em que poderão tirar o sapato apertado, tomar um banho demorado e, quem sabe, ver um pedaço de novela ou um jogo do time.

Muitos nem isso conseguem.

Chegam em casa, o corpo pede cama, a mente ainda repassa a lista do que precisa fazer amanhã.

O pior não é só o corpo que dói. É o tempo que escapa. O filho que cresceu sem que a mãe pudesse ir à festa da escola. O marido que adormece sozinho porque a mulher chega tarde. O idoso que espera a visita que nunca acontece porque o domingo virou dia útil. É perder aniversários, perder formaturas, perder os pequenos rituais que costuram uma vida.

Mas neles também há uma força silenciosa, quase invisível. É a dignidade de quem sustenta a casa, de quem paga as contas, de quem coloca comida na mesa mesmo quando o corpo implora por trégua. É a risada cansada que ainda surge quando o colega faz uma piada no intervalo. É a esperança teimosa de que um dia, quem sabe, as coisas mudem. Que venha o emprego com folga decente, o salário que permita respirar, o horário que permita viver.

Eles são a maioria silenciosa que faz o mundo girar enquanto o resto descansa. Sem eles, as prateleiras estariam vazias, os hospitais parariam, as ruas ficariam sujas, as portas das lojas fechadas.

O domingo dos outros existe porque o deles foi trocado por necessidade.

Por isso, quando você encontrar uma dessas pessoas trabalhando no seu dia de folga, sorria um pouco mais. Diga obrigado. Reconheça o sacrifício que raramente é visto. Porque a crônica da vida real não é feita só de grandes feitos. É feita também e, principalmente, de quem acorda todo domingo sabendo que o descanso ainda é um luxo distante.

E mesmo assim segue. Porque precisa. Porque ama. Porque é assim que se constrói uma vida, um tijolo de cansaço por vez.

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