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Cadê as ideias?

Conluio com café

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Dia desses estava batendo papo com o meu grande amigo Sergio Diniz da Costa, escritor talentosíssimo e editor do Jornal Cultural ROL: “Edu, não há escritor que se salve sem conluio com café.” Se ele está ou não certo, não é algo que irá me tirar o sono, até porque parece se encaixar no meu dia a dia quando eu me debruço sobre uma folha de papel em branco e começo a rabiscar. “Edu, que letrinha, hein!” Caí na besteira de mostrar o rascunho para o Sergio.

Já ouvi o J. Emiliano Cruz (Jota) – autor do recente A Felicidade e os Risíveis Amores de Todos Nós – afirmar que seu principal fantasma é não ter a menor noção de qual será o seu próximo conto. Cadê as ideias? Elas virão? De onde?

Ainda em relação ao Jota, creio que foi ontem, mas pode ter sido anteontem ou na semana passada. Conversando com o meu camarada, eu lhe disse que, muitas vezes, começo uma história com uma ideia inicial, mas que se transforma em bolinha de gude descendo uma escada íngreme e tortuosa. Sim, isso mesmo que você imaginou (ou não). Não tenho a menor noção de como se dará o desfecho. “Edu, comigo acontece a mesma coisa, que nem tampinha de refrigerante na carroceria de caminhão.”

E a poetisa Hélida Pivante, que não é bissexta por acaso: “Edu, quando sento para fazer poesia, sempre aparece alguém e me diz: ‘Ah, já que você não está fazendo nada, bem que poderia me fazer um favorzinho.’ Pois é, Edu, como se fazer poesia não desse trabalho. Até parece que escritor não faz nada, que somos um bando de desocupados.”

Por falar em trabalho, o Daniel Marchi, durante nossas conversas diárias, sempre me solta algo do tipo: “Edu, adoro ser professor e advogado, mas encaro essas profissões como trabalho. Literatura precisa me dar prazer e, por isso, deixo a mente livre. A inspiração de vez em quando escapa, porém sempre volta recheada de novidades.” Que cara sortudo!

Ai de mim se eu fosse confiar apenas na inspiração para escrever. Se eu não fizer o tal conluio com café todos os dias, é provável que não saia nem mesmo uma mísera linha. Café, meu amigo. No meu caso, gourmet. Ah, e sem açúcar, pois de doce já basta a vida.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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