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Os nicks

Uma noite de amor de Lua Serena com Vento do Mar

Publicado

Autor/Imagem:
Teresa Cristina Barbosa da Nóbrega - Texto e Imagem

A sala de bate-papo estava vazia, salvo a presença de Lua Serena. Após dar uma cor brilhante ao seu nick, poucos segundos depois surgiu Vento do Mar. Um mero ‘Oi!’, sem nenhum “Boa noite”. Entre eles, a ausência de cumprimentos formais era uma forma refinada de intimidade.

As palavras entravam na tela como quem atravessa uma porta entreaberta.

— Hoje a lua parece diferente.

Ela respondeu:

— Talvez porque esteja nos observando.

Do lado de fora, a cidade se dissolvia na madrugada. Do lado de dentro, apenas duas almas iluminadas pela claridade discreta dos monitores.

Conversaram sobre o silêncio, sobre o perfume que a chuva deixa nas janelas, sobre o quanto um beijo imaginado pode atravessar cidades, estados, países e continentes.

Foi quando ela escreveu:

— Feche os olhos.

Ele obedeceu, sorriu sozinho e, na imaginação, a tela desapareceu.

Havia apenas a penumbra de um quarto onde as cortinas dançavam ao sabor de uma brisa preguiçosa. A luz da lua desenhava sombras delicadas sobre móveis antigos, enquanto um aroma de jasmim parecia nascer da própria noite.

Ela caminhava devagar, sem fazer ruído. Era como se o silêncio também tivesse aprendido a respirar. Quando finalmente seus olhares se encontraram, nenhuma palavra foi necessária.

Os beijos vieram primeiro na imaginação e depois na pele inventada pelo desejo. Eram lentos, demorados, feitos mais de pausas do que de pressa, como se o tempo tivesse decidido esquecer o relógio sobre a mesa de cabeceira.

Lá fora, a madrugada continuava indiferente. Lá dentro, dois corações aceleravam em perfeita sintonia.

A respiração aquecia o ar, e o calor da proximidade fazia surgir pequenas gotas de suor, discretas como o orvalho que amanhece sobre as folhas. Os lençóis de linho egípcio guardavam a lembrança daquele instante, levemente umedecidos pela soma da noite, do verão e da emoção de dois corpos sonhados que jamais precisaram existir para serem verdadeiros.

Ele aproximou o rosto e ela sorriu antes mesmo do próximo beijo. Nenhum dos dois tinha pressa, porque a beleza daquele encontro estava justamente na lentidão, no cuidado, na delicadeza de quem descobre que a ternura pode ser mais intensa do que qualquer tempestade.

Então, sem aviso, uma mensagem surgiu na tela.

— Você ainda está aí?

Ele abriu os olhos, o quarto desapareceu, os lençóis voltaram a ser apenas imaginação, o perfume de jasmim dissolveu-se na luz fria do monitor.

Depois, sorriu, enquanto digitava:

— Nunca saí.

Ela respondeu quase imediatamente:

— Eu também não.

A tela voltou ao silêncio, mas ambos sabiam que, dali em diante, toda noite carregaria um pouco daquela penumbra. É sabido, no mundo virtual, que certos encontros jamais acontecem de verdade. E, ainda assim, deixam lembranças capazes de perfumar a memória por uma vida inteira.

Outras noites acontecerão. Nessas ocasiões, ele degustará o mel do prazer; ela, com a boca insaciável, beberá do leite quente usado no preparo do manjar dos deuses do Olimpo.

………….

Teresa Cristina Barbosa da Nóbrega é psicanalista, estudiosa dos sentimentos e comportamentos humanos

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