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Sonhos

O Cogumelo Zebú

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Tasso Scherer

“- Por que está fazendo tudo isso por mim, dom Juan? – indaguei. – Estou apenas fazendo um gesto por você; outras pessoas já fizeram gestos semelhantes por mim e um dia você também fará um gesto, um toque por outros; […]”
(*VIAGEM À IXTLAN, livro de Carlos Castanheda – 1972)

1.
Na fumaça do cigarro, o tempo de tudo e as imagens desconexas.

Viajou pela História – e pela história pessoal dele -, por algumas décadas antes e depois.

Tudo ainda desconectado.

A perda da noção do tempo “dos homens” é, por vezes, fundamental.

O cara piscou os olhos e procurou o foco.

Nada.

Tudo ainda embasado.

Colocou uma música no notebook:

“Faz de conta que ainda é cedo… como um dia de domingo”

Atordoado e cheio de emoção, pensou:

“O que acontece depois de anos e anos em nossas vidas? O que podem as lembranças realizar com nossos sentimentos? O que ocorre? O que se passa?”

2.
Saiu logo no início da manhã e pegou a trilha do Costão.

Passo a passo, meio ainda tropeçando, rumou para o Vale da Utopia.

Pela trilha foi encontrando sinais dos tempos: uma cobra verde passando zingrando pela areia; duas Marias-Joanas brincando de fazer amor; um urubu comendo os restos da gaivota que sucumbiu; flores e perfumes inacreditáveis.

Tropeçou e desceu rolando pela duna de entrada na praia do Maço e logo chegou até a Ponta das Andorinhas. Deitou-se embaixo de uma pequena árvore e dormiu.

3.
Sonhou com dragões do mar, sereias que viriam para seduzi-lo, com coisas tão disformes e múltiplas que jamais conseguiria contar.

Acordou, mergulhou no grande Atlântico e aqueceu-se ao sol do verão.

Retomou à trilha.

Continuou procurando o Grande Cogumelo Zebú como nos sonhos das últimas semanas.

Paciência. Coisas da trilha.

O cara nem era dado a essas paradas psicodélicas, mas sabia dos lances e isso lhe provocava imensa curiosidade.

Tocou os passos em frente.

Desceu na Praia de Cima, enroscou o tênis na pedra e pranchou na areia da praia.

4.
Caminhou pela longa praia e rumou para o centro da vila. Na descida da rua, ao pé do morro, parou no Bar do Zé. Tomou um goró, uma cerva gelada e ficou ouvindo as histórias do Zé.

“Amigo, tem vez que é assim… tem vez que não é… lembra que há uns anos quando o senhor chegou aqui e a gente se falou… contei o lance do Cogumelo Zebú do Vale da Utopia?… pois então… ainda está lá… ninguém achou ainda. Será que a gente ainda vai achar?”

5.
Chegou à pequena pousada no final da tarde.

Lua cheia no céu da Guarda do Embaú.

Sentou-se na cadeira de plástico vagabundo e ao olhar para o espelho na porta de entrada do mínimo banheiro, outra cara estava ali para indagar:

– E aí? Foi lá? E você se encontrou? – num tom meio sério, meio sarcástico.

Respondeu apenas que não.

Na hora, a réplica providencial:

– Sonhos não mente. Continue procurando.

6.
O cara dormiu direto por dois dias. Imagens girando no sonho feito caleidoscópio; tudo desconexos e aparentemente sem roteiro razoável e racional. Lembrou-se do tempo de criança em que tinha dificuldade de saber quando estava sonhando ou acordado. Ficaram as histórias sem pé, nem cabeça.

Ligou o notebook e o anúncio estava lá no site da internet:

“Você deseja o fabuloso Gogumelo Zebú? Última oportunidade Direto do Vale da Utopia. Pago bem pelos teus sonhos” – e finalizando, o contato para o encontro no Vale da Utopia, ao lado da cachoeirinha/olho d’agua, com hora e dia marcados.

Sem saber se acordado ou sonhando, ele juntou o cajado, calçou o tênis e pegou a estrada, direto para a trilha do Vale.

……………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador; acredita em discos voadores, rock psicodélico, em teorias psicanalíticas dos sonhos e às vezes também não sabe quando está dormindo ou acordado. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

*Foto Tasso Scherer

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