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Tempos antigos

A Porteira do Cavaleiro Negro

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Era nos tempos antigos do sertão mineiro, quando as estradas eram de terra batida e o luar servia de lanterna aos viajantes. Contam os velhos que, nas noites de lua cheia, um cavaleiro solitário chamado Domingos das Almas costumava percorrer o caminho que ligava a Fazenda do Curral Velho à vila de São Roque.

Domingos era homem de poucas palavras e muita coragem. Tinha lutado nas guerras do Império, trazia na alma cicatrizes que não se viam e no peito uma cruz de ouro que pertencera à sua mãe. Montava um cavalo preto chamado Relâmpago, animal fiel que parecia pressentir o perigo antes do dono.

Certa noite de junho, o vento soprava frio e trazia cheiro de chuva que não caía. Domingos voltava tarde de uma missão na vila. A estrada estreita serpenteava entre morros e capoeiras fechadas. Ao chegar à curva do riacho, avistou a velha porteira de madeira, aquela que separava as terras da fazenda abandonada dos Alves.

Diziam que aquela porteira nunca devia ser aberta depois do anoitecer.

Os tropeiros mais antigos benziam-se ao passar por ali e contavam que, em tempos do avô, um capataz traidor havia assassinado o dono da fazenda e jogado o corpo no poço fundo que ficava logo atrás da porteira. Desde então, a alma do fazendeiro vagava, esperando justiça.

Domingos, que não era homem de acreditar em lorota de velho, apeou do cavalo, segurou a tranca enferrujada e empurrou. A porteira rangeu como se doesse. No mesmo instante, o vento parou. Um silêncio pesado caiu sobre a estrada, tão profundo que até os grilos se calaram.

Ele ia montar novamente quando ouviu: o som de cascos lentos vindo da escuridão do outro lado. Não eram cascos comuns. Soavam ocos, como se batessem em madeira podre. Da névoa que subia do riacho surgiu um cavaleiro. Alto, envolto numa capa preta que parecia feita de sombra. O rosto não se via, mas a lua iluminou por um instante a mão que segurava as rédeas: era ossuda, sem carne, apenas osso amarelado.

— Quem vem lá? — gritou Domingos, levando a mão à pistola.

O cavaleiro parou do outro lado da porteira aberta.

Uma voz saiu, rouca e antiga, como se viesse de dentro de um poço:

— Tu abriste a porteira que eu fechei com meu sangue, cavaleiro. Agora carrega o peso do que soltaste.

Relâmpago recuou, bufando de medo. Domingos sentiu um frio que não era do vento: subia pelas pernas, apertava o peito. Tentou fechar a porteira, mas a madeira não se movia, como se mãos invisíveis a segurassem.

O fantasma apeou. Ao tocar o chão, a terra ao redor murchou, as folhas secaram instantaneamente. Ele estendeu a mão ossuda para Domingos:

— Dá-me a cruz que trazes no peito. Foi minha. Roubaram-na quando me mataram.

Domingos sentiu a cruz queimar contra a pele. Lembrou-se então da história que a avó contava: o fazendeiro traído tinha sido amigo de seu bisavô e lhe dera aquela cruz em sinal de amizade antes de ser assassinado.

Com a voz firme, apesar do medo, Domingos respondeu:

— Se é tua, eu te devolvo. Mas que Deus te dê descanso, alma penada.

Tirou a corrente do pescoço e estendeu o braço por cima da porteira. Quando a cruz tocou os dedos de osso, um vento forte soprou, carregando um lamento que parecia vir de dentro da terra. O cavaleiro negro inclinou a cabeça, como se agradecesse, e começou a se dissolver em névoa. Antes de desaparecer por completo, disse ainda:

— Fecha a porteira, Domingos. E nunca mais a abras à noite.

Algumas portas só deviam ser abertas pela justiça ou pelo perdão.

O cavaleiro montou novamente e seguiu seu caminho. Ao amanhecer, quando os primeiros raios de sol tocaram a estrada, encontrou a porteira bem fechada, como sempre estivera. Mas na madeira, onde antes havia apenas musgo, apareceu gravada uma cruz idêntica à que ele carregara por anos.

Desde então, os viajantes que passam por ali ao luar contam que, se alguém tentar abrir a porteira depois do escurecer, ouve o tropel distante de um cavalo e uma voz anciã que avisa:

— Fecha o que a noite guardou.

E ninguém, até hoje, teve coragem de duvidar.

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