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Entardecer

Crepúsculo de Mármore

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

O entardecer veste-se de carmesim e ouro,
a última confissão do dia,
um véu que se rasga em silêncio.

E a lua cortesã de alabastro
ergue seu olhar altivo,
sabendo que meu coração é um esteta
que perdeu o compasso da razão.

O amor aguarda no salão de espelhos,
com luvas de cetim imaculado,
mas chega sempre tarde
ao próprio destino.

Às margens do rio outonal
nossas máscaras cintilaram,
juramos nunca despí-las,
como quem sela um pacto
com a eternidade.

É requinte e veneno,
um cristal que guarda o abismo,
e o teu nome flor proibida
desfolha-se no jardim da memória.

Hoje tombamos pela sexta vez,
com almas frágeis de porcelana,
pergunto se resistiremos
à sétima vertigem.

Há paradoxos, Senhor,
que só existem em tuas comédias divinas,
e é tua pena dourada
que escreve nossas tragédias de salão.

A primeira a morrer?
A beleza.
Sempre.
Relógios são ourives cruéis,
cravam gemas em corações de cera.

Tu foste minha obra-prima,
mas a arte é um sopro efêmero,
um cisne de mármore
que navega rumo à Beleza absoluta,
deixando atrás de si
as correntes da virtude.

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